[FOTOS] Sandman – paperback com slipcase

Fotos da coleção completa de Sandman em 10 encadernados de capa mole com a caixa protetora! Uma beleza de coleção, o acabamento, as cores restauradas e o cuidado com as lombadas coladas são ótimos. O único porém é o tamanho da caixa, que parece ser um pouco apertada, podendo estragar algum volume na hora de guarda-lo. A capa não fica empinada e as páginas são boas, é um LWC (tipo papel de revista) mais grosso, muito bom para manusear.

Não quer gastar uma fortuna com o Sandman Absolute?  Meu irmão comprou a coleção em uma promoção, ficando cerca de 35 reais cada volume. Compensou pra cacete, um puta acerto. Algum dia o Novo Resenhar Experientia terá resenhas das histórias de Sandman, talvez a obra-prima de Neil Gaiman.

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Anotações Planetary – #04 Strange Harbours

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Lendo Planetary via scans no computador, foi com esta edição que comecei a gostar da série. As três anteriores não são ruins, mas na época estava achando muito rápidas e muito desconexas. Talvez pelo número de páginas páginas splash, aquelas que é uma única imagem, ou pelos diálogos rápidos. Na época eu pensava que a série era muito apressada, mas tudo tem a ver com a expectativa do leitor, porque agora eu gosto das primeiras histórias. Depois de encontrarem o fantasma vingativo em Hong Kong e descobrirem aquela espécie de HD metafísico, o trio de Planetary investigam um artefato achado nos escombros de um prédio destruído por um ataque terrorista.

marvelComeçando pela capa, ela simula uma antiga capa de história em quadrinhos, aquelas com a palavra “magazine”, mostrando o sr. Wilder em uma postura heroica. A sua capa, a faixa na cintura, as faixas nos braços, as botas e o detalhe em forma de raio no peito são uma alegoria ao Capitão Marvel, da DC Comics. Segundo a Wikipedia, o Capitão Marvel, foi criado em 1939 pelo roteirista Bill Parker e pelo desenhista C. C. Beck. Ele apareceu pela primeira vez na revista Whiz Comics #2, lançado em fevereiro de 1940, durante a era de ouro dos quadrinhos. Com uma história que envolve uma fantasia adolescente, Capitão Marvel é o alter ego de Billy Batson, um jovem que trabalha como repórter de rádio e foi escolhido, devido a sua bondade interior, para receber os poderes do Mago Shazam, a fim de preservar a justiça e a paz no Universo. Ser alter ego e o aspecto da bondade interior combinam perfeitamente com o personagem de Wilder em Planetary, como na situação em que o detetive tenta salvar um homem em um beco que está sendo assaltado e em vários diálogos que mostra sua bondade.

A página de Travis Hedge Coke traz uma observação muito interessante: O sobrenome de Jim Wilder pode ser uma referência ao roteirista e diretor de cinema Billy Wilder. Este diretor realizou vários filmes em que fazer a coisa certa é um tema central, como em Double Indemnity (1944), que estrela Fred MacMurray, que por sua vez serviu de molde para o Capitão Marvel!

As primeiras páginas da história, no encadernado da Panini Comics da página 82 à 87, mostram um mistério que será realmente desvendado no antepenúltimo número da série. Fica esse mistério sobre o atentado terrorista e a empresa Hark, mas nada que atrapalhe esta edição.

Nas páginas 95 e 96 a transnave ciente relata ao sr. Wilder a natureza do multiverso, como visto no computador da equipe dos heróis pulps nas Montanhas Adirondack e no artefato em Hong Kong: “Existe mais de uma Terra, sr. Wilder. O seu universo paira dentro de uma estrutura de universos comparável a um floco de neve. Há canais que interligam as inúmeras terras alternativas, de resto separadas umas das outras. Chamamos isso de sangria”. Aí esta uma explicação bem clara sobre os vários mundos representados pelo teorema do floco de neve, a interligação com a sangria e as possíveis interferências entre as realidades. Não lembro se já comentei em algum post anterior, mas vale a pena dizer de novo: a ideia da sangria e do multiverso é um comentário de Warren Ellis sobre as terras paralelas e os universos paralelos presentes nas histórias em quadrinhos, principalmente da Marvel e da DC. Ellis pega essa zona editorial e transforma em um conceito muito interessante que permeia Planetary.

1:4:97. Página em splash mostrando a queda da transnave na “nossa” realidade, o planeta Terra de Planetary. Achei muito legal essa interação entre as realidades, como se a queda da transnave tivesse causado a extinção dos dinossauros, funcionando igualmente como um choque de meteoro. Arte linda de John Cassaday.

Quando Wilder conta sobre a nave para Jakita, Baterista e para o Elijah Snow, ele menciona que a nave precisa de mais pessoas para se transformar em tripulação, uma alusão à família Marvel, do Capitão Marvel, que pode assumir seus poderes.

O tema de fazer a coisa certa realmente é bem forte nesta edição, como a postura que Elijah Snow toma no final, ao resolver financiar incondicionalmente a busca de Wilder pela sua tripulação. O último diálogo da história, de Elijah, mostra bem a bondade de Wilder: “O probre-diabo ganha recheio de material alienígena no corpo e topa passar o resto da vida tentando convencer seis outros a fazerem o mesmo, de modo que uma espaçonave perdida possa voltar pra casa”.

Uma última coisa para levar em consideração é que o conceito de transnave e do multiverso já foi usado por Warren Ellis em outra série da Wild Storm, The Authority. Dessa forma, além da edição de crossover entre as séries, há uma comunicação clara entre as duas criações de Ellis. É isso para este post, leitores. Como sempre, uma história de Planetary pode parecer rápida, mas carrega várias coisas escondidas e comentários sobre quadrinhos, filmes, teorias ou cultura. Uma HQ muito interessante.

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Planeta dos Macacos – A origem (2011)

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Aproveitando que o filme Dawn of the planet of the apes (Planeta dos macacos: o confronto) está prestes a ser lançado nos cinemas, resgato um post sobre o filme anterior, o reboot da série. Planeta dos Macacos – A origem (Rise of  The Planet of The Apes, 2011mostra a natureza gritando “não!” ao homem. Claro que devemos usufruir da natureza para ficarmos vivos, extraindo recursos e dominando as doenças e os desastres naturais, mas o filme funciona como um aviso para nós humanos: Do not mess with nature. 

Esse post contém spoilers medianos. Em São Francisco, o experimento com um remédio contendo o vírus ALZ 112, destinado a terapia genética para a cura do Mal de Alzheimer, mostrou ótimos resultados com chimpanzés. Porém, após um desastre com uma das cobaias, Will Rodman (James Franco), cientista criador da droga, leva o filhote dela para casa meio contragosto. Talvez o macaquinho fosse uma boa companhia para seu pai, Charles, que sofre de Alzheimer (John Lithgow) e acaba batizando o macaquinho de Cesar. Passam-se 3 anos, César cresce e apresenta um desenvolvimento cognitivo mais veloz que de um bebê humano. Ele aprende alguns sinais para se comunicar com Will e demonstra ter emoções bem desenvolvidas. Cesar vive alegremente no sótão, onde tem brinquedos e uma janelinha para ver o mundo lá fora.

Em um momento, Charles com seu Alzheimer mais avançado devido uma rejeição no próprio corpo da droga 112, pensa que o Mustang estacionado na rua do vizinho é o dele e entra no carro para dirigir. Como é de se esperar, o velho bate o carro muitas vezes tentando sair do acostamento. O vizinho aparece e, sem considerar a doença de Charles, agride-o e chama a polícia. Enquanto isso, do sótão Cesar observa com fúria o vizinho cutucar Charles e resolve ir pra rua defender seu “avô”. O macaco, nesse momento mostrando sua capacidade agressiva, dá umas porradas no cara, deixa-o assustado e quase arranca um dedo de sua mão. A polícia chega e Cesar é capturado para ser levado à um viveiro do governo parar símios em San Bruno.

Assim como a mãe de Cesar  foi morta na empresa tentando defender  seu bebê, Cesar é punido por defender Charles. Se o ato de defesa da mãe macaco trouxe Cesar para Will, o ato de defesa de Cesar o tirou-o de Will para sempre.

Confinado no viveiro, Cesar experiencia uma verdadeira prisão. Sofre mal tratos por parte de um bastardinho que cuida dos animais, é agredido por Rocket, que entendi como o macaco alfa do local, sofre de solidão e com a péssima comida. Porém, encontra uma companhia a sua altura, um orangotango de circo que também sabe se comunicar por sinais. “A evolução torna-se revolução”, como está escrito no poster americano do filme. Cesar começa a planejar se revoltar com a ajuda dos seus companheiros de espécie. Aí começa as partes de ação (bem dirigidas, vale dizer) que imagino que muitos esperavam desde o começo do filme, quando os macacos começam a destruir tudo. O fim do filme vai surpreender alguns e alegrar aqueles que gostariam de uma sequência para a origem.

Cesar, apesar de fazer referência ao fascismo com a conversa sobre os gravetos, quer a liberdade com o menor numero de baixas humanas possível. É evidente a inteligencia de Cesar durante os combates. Ele é estratégico como um verdadeiro romano, como é mostrado na batalha final do filme no meio da ponte Golden Gate.

O exército de macacos liderados por Cesar parece não buscar vingança generalizada, mas liberdade e respeito. Seu destino é chegar até a floresta de sequoias, não sair destruindo prédios e matar todo mundo. Certo, eles destruíram a Gen-Sys, mas foi um ataque válido para Cesar, já que é para lá que alguns dos seus companheiros chimpanzés foram levados para experimentos, e simbolizou uma revolta contra suas raízes humanas.

Planeta dos Macacos – A origem  é um filme bom por alguns motivos que consegui pensar: A interpretação de Andy Serkis, quem faz os movimento e expressões de Cesar; a fotografia do filme e os movimentos de câmera; por ser um ótimo reboot com uma história muito bem contada e empolgante, além de trazer temas sobre ciência e sociedade. Sobre Serkis, é vital dizer que César consegue nos passar uma humanidade tremenda e assim, pode gerar empatia com quem assiste. Se você ficou triste ou torceu por César, uma grande parte do mérito é de Serkis. Pessoalmente, achei um ótimo personagem com atuações dignas, uma mescla de humanidade com ferocidade. Sobre a fotografia do filme, é só observar para ver a harmonia. É um visual muito agradável e deixa a história ser contada com mais prazer.

E a ficção científica? Rise of The Planet of The Apes consegue ser um filme muito melhor que o Planeta dos Macacos de Tim Burton e dar uma força nova para a saga. Mérito dos roteiristas. Dedicam o filme para contar a história sem pressa, mostrando as transformações e o crescimento de Cesar, além de funcionar como um prelúdio para os filmes clássicos. E também podemos pensar em outras questões que se apresentam no roteiro as vezes de maneira sutil. Em que o homem se mete ao tentar vencer a velhice e a doença, como Will tentava? O filme levanta questões importantes para os cientistas. Qual é o limite para o controle humano sobre a natureza? Ainda é ético realizar experimentos com animais? Foi uma instituição humana que tornou César num rebelde agressivo, transformando-o em um guerreiro por um batismo de punição. E os efeitos danosos causados nos humanos pela droga 113? Mostram o perigo do desenvolvimento científico ambicioso, a autodestruição humana em forma por trás da racionalidade.

Concluindo, se você ainda não viu Planeta dos Macacos – A origem, assista sem medo. É uma ótima história de ficção científica, bem elaborada e com direção competente de Wyatt. Enquanto isso, ficamos na espera para ver o que sai do próximo filme.

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Asas do desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

wings of desireQuando a criança era uma criança

era a época destas perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui, e por que não lá?
Quando foi que o tempo
começou, e onde é que o espaço termina?
Um lugar na vida sob o sol não é apenas um sonho?

  (poema de Peter Handke)

“Asas do desejo” (ou como no alemão, “O céu sobre Berlim”) , do diretor Win Wanders, é em sua essência um ode à vida e ao humano.

A premissa é simples: Dois anjos, Cassiel (Otto Sander) e Dammiel (Bruno Ganz), acompanham as almas desesperadas da Berlim pós-guerra. Os protagonistas celestiais devem cuidar dos humanos, lendo seus pensamentos e observando seus sofrimentos. Dammiel não escapa de sua condição divina, ao se apaixonar pela trapezista Marion e não poder consumar seu desejo. Para poder tocá-la, ele deve deixar de ser anjo e tornar-se mortal.

Dammiel deixa sua condição divina e se torna mortal pelo aspecto mais característico do humano: o desejo. Desejo de amar, de sentir e de tocar, mais especificamente. Ele cai no solo ao lado do muro de Berlim e descobre, com alegria, que sua cabeça está sangrando. Não deixa de ser uma forma de batismo. Dammiel então tem a possibilidade de sentir o frio, de tomar café quente, fumar um cigarro, esquentar suas mãos esfregando-as uma na outra, e outras coisas que para nós passa despercebido e parece não ter valor. Porém, a busca maior é encontrar Marion e experienciar o amor. Há um diálogo muito bom, após dias de experiencias e com a certeza de ser realmente humano, em que Dammiel escreve  em algum tipo de carta: “Eu agora sei o que nenhum anjo sabe.”

O amor impossível não é o único elemento que seduz o público. Através dos dois anjos, vemos os pensamentos e reflexões fragmentadas dos berlinenses  compor uma narrativa variada e dinâmica. Os curiosos diálogos internos retratam o cotidiano, a condição humana e urbana de um mundo sob a sombra da guerra nuclear. São cenas calmas, cinzentas, cenas solitárias e cotidianas.

Numa reflexão sobre o divino e o efêmero, Wanders contrapõe  angústia do homens com o desejo de viver dos anjos. É interessante o dualismo entre os dois mundos apresentado no filme. O mundo dos anjos, estes impotentes, condenados a observar a história de forma passiva, incapazes de realmente ajudar os homens, e o nosso mundo, o mundo das angústias, crises existenciais, guerras, mas também o mundo dos prazeres, da esperança e do amor.  Em uma cena, Cassiel sofre por não poder salvar um suicida. A dualidade está presente também na estética do filme: enquanto os anjos enxergam em preto e branco, os homens vivem num mundo colorido, porém sem deixar de ser cinzento. Falando em estética, nesse quesito Asas do desejo é impecável, certamente um marco e uma obra de referência.

O filme vale muito a pena ser visto, no mínimo para saber de onde  veio o melodramático e idiotizado “Cidade dos anjos” (EUA, 1998), que parece ser bem inferior ao original. O diretor realizou uma sequência para Asas do desejo, chamada “Tão longe, tão perto” (In weiter Ferne, so nah!) de 1993. Já que gostei do primeiro, vou procurar o segundo e espero que seja tão bom quanto o anterior. Pelo menos é doWin Wenders e tem os mesmos atores.

 

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Azul é a cor mais quente – HQ

capa blue is the warmest colorAzul é a cor mais quente (Le bleu est une couleur chaude, no original) trata-se de uma história em quadrinhos adulta escrita por Julie Maroh. Lançada em 2010, a história teve seu boom com o lançamento do filme que leva o mesmo título em português (mas original, La vie d’Adele). O foco desse post é a história em quadrinhos (vou resumir até mais ou menos o meio da HQ); depois comentarei mais sobre o filme.

Para começar, a arte dos quadrinhos é linda e sutil. O cinza representa a história passada sendo relembrada pela leitura de um diário. Já as partes coloridas representam o momento mais recente da narrativa. A história, que pincela os momentos passados e o atual, é vivida por Clémentine e Emma. O desenho e a disposição de cada quadro atraem e amarram o leitor, sendo impossível não ler a HQ de uma só vez.

A história traz Clémentine, uma estudante comum, mas que não compreende o que é o amor. Sua primeira tentativa em descobri-lo ao perceber que um menino mais velho da escola a olha com frequência. Nesse momento há a primeira aparição do azul. Impulsionada pelas amigas, Clémentine se aproxima do menino como uma forma de tentar encontrar explicações nele que a satisfaçam. Mesmo iniciando um namoro com o jovem e enxergando-o como um bom companheiro, Clémentine ainda se sente incompleta e com dúvidas sobre o que sente por ele e o que se trata esse sentir. Clémentine expressa esse incômodo em seu diário, servindo de pensamentos que a acompanham em cenas silenciosas. Assim, o diário proporciona quadros de narração de forma intimista. Em uma dessas cenas Clémentine cruza com um casal de garotas, uma delas com o cabelo e olhos azuis, única cor destoante do cenário cinza. O olhar das duas se cruzam e Clémentine nunca mais se esqueceria daquela garota e daquele momento. O azul se espalha pelo resto dos quadrinhos e Clémentine busca em todas as aparições da cor a possibilidade de reencontrar a garota.

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Afastando-se do jovem por não sentir a atração de maneira recíproca e recusando seu sexo, Clémentine encontra em seu melhor amigo gay, Valentin, consolo e conselhos. Eis que uma colega de colégio lhe rouba um beijo e Clémentine sente pela primeira vez desejo e atração. O beijo foi suficiente para deixá-la feliz e procurar a autora do disparador beijo novamente. Porém, não sendo correspondida, Clémentine se frustra e volta à estaca zero. Valentin é o ponto de apoio e de questionamentos sobre os preconceitos que Clémentine aprendeu a reproduzir em relação aos modos de expressar a sexualidade. Clémentine não quer e não se assume homossexual. Ela enxerga tal posicionamento como um peso e sinônimo de rejeição por parte da sociedade em que se insere. Em uma saída com Valentin e escapando de sua proteção, Clémentine entra em um bar de lésbicas. Lá ela se depara com a garota do cabelo azul, que também a nota. Finalmente Clémentine conhece Emma e sua namorada.

A presença de Emma no dia seguinte na saída da escola é o estopim para que o círculo social de Clémentine (com seus cochichos impregnados de julgamentos) a taxe de lésbica, excluindo-a. É uma das partes mais tensas da história, pois Clémentine se vê dividida em proteger Emma e se proteger desse peso social. Ela se afasta de todos e questiona como Emma aguenta esse ‘fardo’. Emma e Valentin confrontam a visão taxativa de Clémentine com o sentir amor por alguém, ou seja, que o que ela busca não depende de gênero, como ela pensava.

Tempos depois (pois confrontar o que se aprendeu e quebrar tabus não acontece da noite para o dia), já no último ano do colégio, Clémentine reencontra Emma. Clémentine descobre na garota do cabelo azul conforto e segurança, mas Emma mostra que em cada espaço pode-se encontrar olhares preconceituosos. Emma crê que a garota possa amar outros rapazes, mas Clémentine só deseja seu beijo. Dentre discussões sobre o que seria o amor elas o primeiro beijo acontece e vem misturado a lágrimas. Clémentine conhece seu corpo e o de sua companheira, encontrando prazer e amor naquele sexo. Aos poucos uma se insere na vida da outra e Clémentine encontra nas dificuldades e prazeres desse novo momento o seu crescimento. É possível compreender que Emma também cresce, simbolizado pelo seu cabelo já não mais azul. Em um primeiro momento, Emma é quem provoca mudanças em Clémentine, mas há uma hora em que esta precisa questionar Emma, fazendo as duas ficarem mais plausíveis e humanas. Paro por aqui, pois vale a pena buscar na fonte original como se dá esse crescimento e desfecho. Porém, acrescento que é uma leitura que emociona sem clichês ou exageros.

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São pessoas que sentem algo desconhecido e que quando descobrem, o sentido revelado vem carregado de preconceitos e obstáculos. Ou seja, é o dilema de descobrir-se e ter que enfrentar essa nova realidade ou encenar uma vida mediana e dentro do esperado. O contexto das duas garotas é permeado por preconceitos que as desafiam. Os pais e os amigos de Clémentine reproduzem isso em pequenos comentários, enquanto Emma lida com olhares e pessoas se comportando como se o relacionamento entre duas mulheres não fosse possível. Como consequência, Clémentine tem que se afastar desses contextos. Por isso fica tão evidente seu crescimento.

Por outro lado, o foco da história não é verbalizar que Clémentine é isso ou aquilo. Clémentine não diz ‘eu sou lésbica’ em nenhum momento. Aliás, de início ela recusa essa possibilidade, porém mais tarde ela vai além: enfrenta as consequências daquela escolha e faz o que Emma e Valentin lhe disseram: ela ama. E ama muito. Esse é um dos pontos no qual o livro se supera. Com sua mensagem ‘All you need is love’, a história traz uma situação pela qual todos os adolescentes passam, a descoberta de si ou a construção de si, a escolha entre ser conduzido e conduzir sua história.

Agora levando em consideração o filme baseado nessa história, fica o primeiro comentário: prefiro o livro.

O filme é bom? É. Mas exagera na carga intelectual de cada personagem. No filme, as protagonistas são muito cult e isso se sobressai como uma forma de transformá-las em garotas interessantes, enquanto que na HQ elas parecem ser garotas mais simples. Sobre o desenvolvimento das personagens, o filme é muito mais rápido do que a HQ, principalmente na parte da adolescência de Clémentine (que é Adele na versão cinematográfica). A HQ parece ser mais cuidadosa com a construção das duas meninas e põe isso em uma escala de tempo maior, visto que a atração das duas durou praticamente todo o ensino médio. Outro ponto são as cenas de sexo. Sem entrar na discussão sobre o diretor ter sido machista nas cenas ou não, elas acabam sendo longas e não conseguem expressar o mesmo amor e calor que o livro sutilmente apresenta. Ou seja, são características que seguem o idealizado pelo público-alvo e diferenciam o filme da HQ. E não sejamos hipócritas, nem os quadrinhos nem os filmes pairam acima da comercialização dos mesmos, então atrair o público acaba sendo importante. Entretanto, o público que espera uma HQ super sensual lotada de desenhos eróticos irá se frustrar. Outro ponto interessante é que livro e filme apresentam finais divergentes, mas conserva as características e a essência das personagens. Para quem assistiu ao filme, o livro pode surpreender também nesse aspecto.

Mas essa preferência não exclui o valor do filme. Graças a ele o livro ficou conhecido e pudemos experimentar a temática do desenvolvimento da sexualidade na adolescências e na fase adulta em quadrinhos. Julie Maroh foi muito perceptiva ao criar essa história, sendo que ela tem como ponto de partida os anos 90 até os tempos atuais, tornando-a muito próxima e íntima a nós, que acompanhamos a luta LGBTS por espaço, respeito e voz. Mesmo com as diferenças entre o filme e a HQ,  Azul é a cor mais quente é bem enfática contra os preconceitos, mostrando que o que realmente importa é o amor. Mérito para a obra, que toca em um assunto tão necessário e polêmico mas não torna-se um mero veículo para militância LGBTS.

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