Sinal e Ruído – Gaiman e McKean

Sinal é ruído é uma obra conjunta de Neil Gaiman e Dave McKean de 1989, publicada mensalmente na revista britânica The Face. O primeiro estava com algumas notas sobre mitos e acontecimentos bizarros sobre o fim do primeiro milênio cristão e um possível fim do mundo, enquanto o outro estava com vontade de fazer uma história sobre os últimos momentos de Sergei Eisenstein. Daí surgiu a história em quadrinhos sobre um cineasta que está elaborando um filme sobre um apocalipse não ocorrido na Europa Central no ano de 999, tendo seu trabalho e sua vida abalados com a descoberta de um tumor maligno. Depois de voltar da consulta médica, o protagonista se mantém recluso em casa e começa a rodar o filme em sua cabeça, pois como é explicado logo nas primeiras páginas, os filmes lhe vem como uma obsessão, impelindo-o ao trabalho sem pedir licença. “Pra quê fazer um filme se logo vou morrer? Por que criar algo em casa, se ninguém vai ver?”, são perguntas desse tipo que atormentam o cineasta ciente de sua finitude tão próxima.

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A sensibilidade e as reflexões sobre a morte, assim como a preocupação de ser lembrado pelos outros ou de deixar algo seu no mundo, são o ponto forte do roteiro de Gaiman. Entre algumas partes em que o cineasta conversa com a amiga produtora ou o vizinho do prédio, Gaiman monta Apocatástase, o filme imaginário que seria muito legal se existisse de verdade (seria meio Ingmar Bergman) e expõe pensamentos interessantes como: “a mortalidade é algo difícil de se encarar. Aquilo que não nos mata fortalece. Pode até ser. Mas o que nos mata nos mata, e isso é dureza. O que é preciso fazer para a vida ter sentido?”; ou: “é pra isso que serve a arte. É a única oportunidade que temos para ouvir as vozes dos mortos. E, mais do que isso, é o que permite que eles cheguem até nós.”

Um texto muito bem acompanhado por montagens, criações e desenhos do sempre interessante Dave McKean (capista do Sandman, pra quem não sabe). É uma arte cheia de ruídos, de sombras e que consegue passar o clima da história. O quadro em que mostra lágrimas discretas no rosto do cineasta é cheio de emoção.

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Uma história muito boa, valeu a sorte de ter encontrado o gibi em um sebo por 25 reais. Para mim, seria melhor ainda se esse conto fizesse parte de uma ou duas edições de Sandman! Seria perfeito: um cineasta que acha seus filmes muito melhores enquanto estão em sua mente (poderia ser em sonhos se fosse no Sandman, sendo que Morfeus conversaria com o cineasta em seu período criativo, algo desse tipo) e que vai ser levado pela Morte em breve. Apocatástase poderia até ser uma parte da Terra dos Sonhos, onde todos aqueles rosto estranhos se encontram enquanto dormem.

Gostei de como o apocalipse é tratado na história. Há o argumento que a história se repete, no sentido de que a humanidade sempre esperou o seu fim, em diversas épocas e de diversas formas. Mas esse fim definitivo, fomentado por um desejo cristão de justiça e salvação, parece nunca vir de uma vez só. São pequenos apocalipses atrás de pequenos apocalipses. Como é dito na HQ, é sempre o fim do mundo para alguém, aqueles que recebem más notícias em consultórios médicos ou telefonemas tristes sobre um ente querido.

A edição da Conrad é capa dura, tem um papel muito bom e um cuidado todo especial para adaptar os termos traduzidos para o português que se mesclam com a arte. São minutos muito bem gastos de leitura e apreciação.

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