Madame Bovary, um livro genial

livro madame bovaryMeu parco conhecimento a respeito da aclamada obra de Gustave Flaubert, Madame Bovary, vem de longe. Talvez por meio de pesquisas pela internet quando eu tinha 10 ou 11 anos, ou por referências em diversos lugares, sejam filmes, outros livros, blogs e ensaios. Confesso que dormi enquanto assistia à adaptação de Claude Chabrol com minha namorada. Foi depois de assistir ao filme Gemma Bovery (2014) que fiquei com muita vontade de ler o romance. Este filme mostra a obsessão de um padeiro de uma pequena cidade na Normandia após conhecer Gemma Bovery e seu esposo, recém-chegados da Inglaterra. A semelhança entre o nome da moça e o romance de Flaubert desperta uma curiosidade misturada com desejo no padeiro, sempre querendo ficar perto de Gemma e saber se esta segue sua vida como a Emma do livro. Para não acabar fazendo uma resenha do filme, quero dizer somente que em uma cena o padeiro tenta convencer a protagonista do filme a ler o romance de Flaubert, dizendo que a mágica do livro é a proeza do autor conseguir nos prender durante várias páginas sem nada acontecer. Por isso, após o filme acabar e ter achado muito interessante o paralelo entre a Emma Bovary e sua corruptela, resolvi pegar o livro e dar uma chance a este grande clássico, tendo em mente que “nada aconteceria”.

Gigante engano! Achei incrível como Flaubert constrói suas personagens através de lembranças, fantasias e pensamentos. A maior parte do livro é composta por investigações das motivações e consciência das personagens, sembre num fluxo relatando o que tal pessoa sentiu ou fez em tal contexto. Eu esperava um romance chato, cheio de descrições cansativas e de difícil digestão, mas agora Madame Bovary é um dos meus grandes favoritos.

Bom, creio que a enredo do romance seja bem conhecido por muita gente. Trata-se da história de Emma, uma jovem bonita, do campo, sonhadora, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Porém, o romance mostra o declínio de Emma e de sua família ao se casar com Charles, um médico mediano muito apaixonado pela esposa. Frente ao tédio do casamento, pois a realidade não corresponde às fantasias românticas e perfeitas de Bovary, ela começa a nutrir desejos adúlteros com muitos homens que vai conhecendo. Essa é a sinopse básica, lembrando que o final envolve o trágico suícidio da madame Bovary, que não estou considerando como spoiler porque a bosta da obra é de 1857 e todo mundo já sabe como o livro acaba! Mas essa é a questão: você pode saber o que for deste livro que não será igual ao prazer de lê-lo. É isso que separa os ótimos livros, que não envelhecem, dos outros livros. Eu lia cada capítulo com muito cuidado, adorando as descrições, os diálogos, as fantasias, angústias e vontades das personagens, principalmente da madame que adora pular cerca.

Para ilustrar melhor o estilo narrativo do autor, selecionei um trecho que gostei bastante. A cena se passa logo após o casamento:

A conversa de Charles era sem relevo como uma calçada e as ideias de todo mundo nela desfilavam com seu traje comum, sem excitar emoções, riso ou devaneio. Ele nunca tivera a curiosidade, dizia, quando morava em Rouen, de ir ver no teatro os atores de Paris. Não sabia nadar, nem esgrimir, nem atirar e não pôde, em um dia, explicar-lhe um termo de equitação que ela encontrara num romance.

Um homem, pelo contrário, não deveria conhecer tudo, ser exímio em múltiplas atividades, iniciar uma mulher nas energias da paixão, nos refinamentos da vida, em todos os mistérios? Mas ele nada ensinava, nada sabia, nada desejava. Julgava-a feliz e ela tinha raiva por aquela calma tão bem assentada, por aquele peso sereno, pela própria felicidade que ela lhe dava.

O trecho mostra claramente como Charles sentiu-se realizado em sua vida ao se casar com uma mulher tão bonita e amável, e o grande abismo entre a fantasia da esposa e o que ele podia oferecer. Considerada uma obra realista, Madame Bovary contém ironia, críticas ao casamento como instituição perfeita e mostra muito bem como o desenvolvimento da mulher, seja sexual, profissional ou acadêmico, era abafa por uma sociedade masculina. Emma ajudava seu pai na fazenda até se casar. Ao se casar, a única coisa que tinha para fazer era mandar na empregada, desenhar um pouco e ficar lendo romances. Os romances eram sua ponte com o mundo, e neles era prometido uma vida de sucesso, de fortes paixões e de uma vida glamourosa em Paris. A única coisa que ela podia fazer era aprender tocar piano em uma cidade vizinha com o aval do marido. Mas ela aproveitava essa oportunidade para ficar em um quarto de hotel com Léon e nunca aprendeu a tocar uma tecla sequer. Era a fuga que ela tinha, um modo de buscar a prometida felicidade em uma vida tediosa

Aposto que há quem ache Bovary uma sem vergonha de mau caráter. As vezes eu achava ela meio boba por buscar uma felicidade inalcançável e um pouco fria por abandonar uma criança pequena. As vezes torcia por Emma e achava que Charles merecia ser traído. Mas também dava dó dele, tanto pelas traições como pela carreira em declínio. Henry James disse que Flaubert tinha conseguido escrever uma obra cuja todas personagens fossem medíocres. Por isso achei o livro tão bom! As personagens, incluindo as secundárias, são muito bem construídas apesar de medíocres, possibilitando vários níveis de empatia com o leitor. Dentre as secundárias, gostei bastante do farmacêutico iluminista Houmais, o padre Bournisien, de Léon e Rodolphe.

Esse post tá ficando grande, mas não dá pra deixar de falar da famosa cena do fiacre, que causou escândalo na época (aliás, Gustave Flaubert chegou a ser julgado pelo caráter imoral de sua obra).  Eu pensei que seria uma cena chocante, bem explícita, mas na verdade é uma cena de sexo de enorme sutileza, sem mostrar quase nada mas sem perder a sensualidade.

Quero encerrar dizendo que indico esse livro para todo tipo de gente, homem ou mulher, jovem ou velho, para aposentados, para quem estuda farmácia, engenharias, cinema ou física. Nem preciso dizer que é obrigatório para quem estuda letras e psicologia. Com certeza uma obra genial que merece ser relida por milênios, se a humanidade sobreviver até lá. Vão ler!

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2 respostas para Madame Bovary, um livro genial

  1. larissa disse:

    gostaria de saber de qual editora é esse livro, pois gostaria da coleção obra prima de cada autor com esta capa 🙂 obrigado

  2. Olá Larissa, obrigado por deixar um comentário aqui no blog. Então, vc mencionou a coleção obra prima de cada autor, mas creio que ela é da editora Martin Claret. Esta aí da foto é da coleção da Abril (http://www.tocadacotia.com/cultura/classicos-abril-colecoes), vendida em bancas na época e hoje bem fácil de ser encontrada em sebos pelo preço de capa, 15 reais. Eu gosto bastante desta edição pela capa, pelo marcador de páginas e pelo material extra no fim do livro. Creio que ainda seja bem fácil de encontrar na estante virtual também.

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