Lendo Dom Quixote pela primeira vez

caixa_quixoteO Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, ou simplesmente Dom Quixote, mudou minha vida como leitor. Parece que ganhei alguma coisa após as aventuras do fidalgo louco e seu escudeiro Sancho Pança, como acontece com uma viagem bem aproveitada ou um curso bem feito. Pensando bem, creio ser este o sentimento produzido ao se ler um clássico. Praticamente inaugurei meu interesse por literatura com Metamorfose, de Kafka. Há pouco tempo, enquanto lia Um conto de duas cidades, de Dickens, era frequente a vontade de reler páginas e páginas da história, somente pelo prazer advindo de um romance tão bem contado e escrito. Com Cervantes não foi diferente. Apesar de seu tamanho monumental (dois volumes com mais de 600 páginas cada, da edição da Penguin-Companhia das letras), cada hora que gastei neste clássico foi bem gasta. Sei que há mil artigos sobre esta obra e há pessoas muito mais competentes do que eu para falar algo de valor sobre ela, por isso nem me darei o trabalho de tentar fazer uma análise que esgote elementos do livro, nem quero fazer uma crítica inovadora. Só gostaria de escrever como foi para mim ler este romance, assim como deixar minha opinião sobre essa grande obra.

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Como já disse, minha edição é a da Companhia das letras, que veio em um box muito bonito de papelão e com uma tradução fluida e acessível de Ernani Ssó. Digo acessível por dois motivos. O primeiro pelo que o próprio tradutor fala no texto de apresentação, que as pessoas de hoje tem medo de ler um clássico só porque é grande e antigo, enquanto na verdade foi um livro “best seller” na época, que divertiu muita gente. Ssó não modernizou o texto deixando o romance cheio de “vocês” e de expressões atuais, mas o deixou muito fluido, na minha opinião. O segundo motivo desta edição ser mais acessível é por comparação a outras traduções presentes em outras versões, como da Editora 34, que possui uma tradução mais requintada e tradicional, além de ser premiada e contar com o texto bilíngue. Esta sem dúvida parece ser a mais confiável, mas não sei se atrai tantas pessoas já com medos e preconceitos.

Vamos ao que interessa. Gostei demais do primeiro volume. Cervantes escreve muito bem, tem uma ótima noção narrativa – de mesclas de gênero, de como não se alongar em partes chatas e até como caçoar de seu próprio texto – além de ser uma história bem engraçada. Assim como muita gente, eu só conhecia o episódio em que Dom Quixote enfrenta moinhos pensando que são monstros, que é o emblema desse clássico. Mas há muitas outras situações mirabolantes, bem contadas e melhores do que esta parte. Dom Quixote sempre se vale de trechos dos livros de cavalaria, tendo um conhecimento enciclopédico sobre personagens, situações, monstros e o código moral de quem leva a vida de cavaleiro andante. Isso é muito importante para a história, tanto para criar situações em que o fidalgo bagunça toda a realidade para ver o mundo como ele quer ver, como um mundo encantado de cavaleiros e donzelas, como para a busca de soluções. Em apuros, Quixote muitas vezes se espelha em seus personagens favoritos, fazendo sua vida imitar a ficção.

A mescla entre realidade e ficção (ou loucura) é muito presente na história inteira. Para começar, tem o próprio Dom Quixote, que ficou louco depois de tanto ler livros de cavalaria. Em suas andanças, ele sempre dá um jeito de interpretar fenômenos sob o ponto de vista desses livros, havendo cenas hilárias de como ele se engana e acaba levando Sancho Pança para sua loucura. A reação de terceiros também é divertida, ora tentando colocar senso na cabeça dos dois, ora alimentando as ilusões e tentando armar alguma aventura perigosa para salvar uma donzela formosa. O próprio narrador da história diz ter encontrado os manuscritos da história de Dom Quixote em árabe, de autoria de Cide Hamete Benengeli! Dessa forma, Cervantes brinca até com seu próprio papel de criador e narrador, dizendo que na verdade toda essa história foi registrada pelo Cide Hamete. Outro fator engenhoso é colocar os personagens no mundo real, ou trazer fatos do mundo real para a ficção. Mas isso explico melhor quando falar da segunda parte.

As subtramas no primeiro livro são muito boas. Há a história do pastor que morreu de amores, literalmente, por Marcela, só porque ela recusou-se a dar seu amor a ele. Toda a vila e os pastores culpam-na pelo crime, sendo que no fim das contas conta-se a história de uma mulher forte, pegando as rédeas de seus próprios desejos e do seu destino. Outras tramas mostram tragédias de casamentos forçados, traições, o conflito entre os cristãos e os árabes, sempre envolvendo uma mulher mais formosa que a outra. Cervantes usa tal traço dos livros de cavalaria para fazer graça: aparecem mais de uma dúzia de mulheres na história, mas cada uma apresentada sempre é a mais formosa e graciosa de todo o orbe.

O primeiro livro tem muitos pontos altos, mas o que achei mais interessante é o livro dentro do livro, a “história do curioso impertinente” que o padre lê em uma estalagem. O conto dura uns 3 ou 4 capítulos e é tão boa que já vi edições próprias para ela, lançada como novela autônoma. Achei incrível como Cervantes destila seu estilo, sua inteligência e seu humor nessa pequena novela, não ficando nada longe do Dom Quixote em si.

Poderia falar de muito mais coisa que gostei do primeiro livro, mas o que realmente quero colocar aqui é que não achei a continuação, publicada em 1615, tão boa quanto a anterior, publicada dez anos antes. Claro, ainda é o Cervantes, então é um texto muito bem escrito, apesar de menos divertido; é um texto cheio de virtudes e inteligência, apesar de menos engenhoso. Antes de Cervantes publicar sua segunda parte, houve outra continuação para as aventuras do fidalgo louco e seu escuro, não oficial, escrito por Avellaneda. Como o primeiro livro foi um sucesso, parece que Cervantes ficou puto da vida por outra pessoa ter ousado a continuar as aventuras de seu cavaleiro.

A coisa mais legal que achei da segunda parte foi a decisão de Cervantes fazer com que o primeiro volume de seu livro e a falsa continuação de Avellaneda existissem no mundo dos personagens. Dessa forma, Dom Quixote e Sancho Pança são famosos, o que acaba reforçando a loucura do cavaleiro da triste figura, e possibilita cenas em que Dom Quixote entra em contato com os escritos dos seus feitos. Há cenas engraçadas em que o cavaleiro tem que desmentir o que está na versão de Avellaneda, assim como quando ele faz duras críticas ao seu modo de escrita e a caracterização que faz das personagens. Apesar disso, parece que Cervantes carregou um pouco na vingança contra o escritor aragão, pois teve partes em que achei que a história só existia para sustentar tirações de sarro e críticas à infame continuação.

Outro fator para não ter gostado tanto do segundo livro foi que Dom Quixote fica um bom tempo, quase um quarto do livro, dentro do castelo de um casal de duques. Fãs das aventuras do cavaleiro e do escudeiro, os duques tentam ludibriar os dois, criando situações nem tão interessantes para Dom Quixote, mas dando a prometida ilha ao Sancho, parte que contem as melhores páginas dessa continuação. Dom Quixote ficou muito parado no castelo, enquanto na verdade ele é um cavaleiro andante. Parece que o clima mudou, não estava dando certo ele ficar lá, tanto que depois o próprio cavaleiro admite que precisa sair para realmente viver como acredita, na sua vocação de defensor dos fracos e das donzelas.

Quando há subtramas neste segundo volume, elas são sombras pálidas comparadas com as da primeira parte, pois são menos engenhosas e de resolução rápida. Senti muita falta de uma história do mesmo calibre do Curioso impertinente. Mesmo com pequenas diferenças entre o primeiro e o segundo livro, Cervantes criou uma transição suave e manteve seu estilo inigualável.

Uma última coisa que quero destacar, em defesa da segunda parte, são os ditados que Sancho Pança dispara, muitas vezes sem nexo algum com o contexto, dando margem para Quixote dar-lhe muitas broncas e conselhos. Os personagens que tiveram contato com a obra de Alvellaneda não podiam estar mais corretos, pois diziam que o Sancho daquele livro era muito mais bobo do que engraçado, enquanto o Sancho da continuação oficial brilha em seus disparates mas sem perder a dignidade.

Tive vontade de escrever este post por não ter achado ninguém na internet falando que gostou menos do segundo livro do que do primeiro. Não me entendam mal, apesar de ter gostado menos da continuação, eu quero ler tudo de novo em um futuro próximo, de tão bom que é esse clássico. Comentem aí, se acham Dom Quixote acessível para os dias de hoje, se a graça dele está mais apagada para o público atual ou qualquer coisa que vocês tiverem vontade de discutir sobre esse incrível livro.

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