As Crônicas Marcianas – R. Bradbury

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As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles) é um livro que reúne contos de Ray Bradbury publicado originalmente em 1950. Algumas das ditas crônicas foram escritas para revistas de ficção científica no fim dos anos 40, enquanto outras apareceram pela primeira vez na compilação. Apesar de serem contos, Bradbury tece-os em um mesmo enredo: a colonização de Marte pela Terra num futuro sombrio.

A minha edição do Círculo do Livro tem 26 contos, mas há certa variabilidade de acordo com a versão e a editora, podendo haver um ou outro conto a mais ou a menos. Antes de falar sobre o conteúdo, vale dizer que os contos maiores são intercalados por contos menores, vinhetas, geralmente para indicar uma passagem de tempo ou retratar algum acontecimento de maneira mais poética, como um verão momentâneo criado pelas turbinas de um foguete.

Como Bradbury escreveu algum dos contos para revistas, é possível lê-los como se fossem autocontidos, o que torna a leitura diferente de um romance, mais parecido com o formado de uma série de TV. Apesar disso, As Crônicas está longe de ser uma antologia comum, pois o livro funciona bem como um romance; há personagens recorrentes, cenários e conceitos que perduram ao longo da obra, além de um início, um clímax e um fim.

Gostei bastante de vários contos, tendo um ou dois mais arrastados. Vou comentar brevemente alguns deles só para mostrar o tom da obra. Ylla é sobre um relacionamento decadente entre dois marcianos, a Sra. e o Sr. K. Este é um dos únicos contos em que Bradbury se alonga em descrições da tecnologia, da arquitetura e de características únicas dos marcianos. Pegaria mais pra ficção científica pesada se não fosse a trama de tensão entre o casal a partir do momento em que a Sra. K começa a sonhar, ter visões premonitórias com um astronauta terráqueo chamado Nathaniel York. Seu marido, movido por ciúmes, começa a se comportar de forma diferente e parece perder sua esposa aos poucos. Outro conto muito legal é Os homens da terra, um conto hilário em que a segunda expedição humana chega a Marte mas não conseguem obter dos locais as glórias e o reconhecimento tão esperados, como se Bradbury menosprezasse a figura do colonizador/herói carente de atenção. Os contos mais pessimistas, como … e a lua continue tão brilhante, Chegarão chuvas suaves e o Piquenique de um milhão de anos, são belas páginas que retratam o medo da guerra atômica do pós-guerra e a perda de expectativa numa felicidade condicionada ao desenvolvimento tecnológico. No primeiro desses contos, um dos tripulantes de uma expedição em Marte entra em contato com a cultura dos nativos, se voltando contra a própria equipe de exploradores. Há, neste conto, além de um comentário de preservação ecológica, um grande teor anti-imperialista. Marte está prestes a se tornar mais um anexo dos EUA, onde as montanhas azuis e os canais do planeta vermelho perderiam seus nomes nativos, lendários, para ganhar nomes como Hudson, Oklahoma ou qualquer outro do estilo. As idiossincrasias e o valor da cultura marciana seria soterrada pela dos humanos. No segundo conto mencionado, Bradbury nos mostra uma casa automatizada em um cenário apocalíptico. Uma vida mecânica que se esvai e perde o sentido uma vez que seus habitantes já morreram. Parece que o autor quer mostrar o quão inútil seria ter uma casa bem equipada, bem regulada e tecnológica, se nós morrêssemos pelo outro lado da tecnologia, pelo seu uso com fins nefastos. É claro, ele estava pensando na bomba atômica. Por fim, o último que quero comentar nesse post, O piquenique de um milhão de anos é sobre uma família americana tentando um recomeço. Além de ser bem escrito, o leitor fica no mesmo plano dos filhos, que não entendem o que está acontecendo até o fim do conto, onde o pai esclarece, de forma emocionante, o que aconteceu para os filhos e para o leitor.

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Outros contos lidam com a identidade, controle mental e telepatia, saudade de entes queridos (mortos ou deixados na Terra), racismo e religião.

Assim como Fahrenheit 451, que veio 3 anos depois, As Crônicas é um bom comentário sobre o que podemos enfrentar pelo futuro, sobre as tumbas que construímos e o futuro que nelas contemplamos. Ou melhor, ficção científica desse calibre usa o futuro para comentar sobre o presente, sobre os nossos erros, sobre quão efêmero a humanidade pode ser ou quão brilhante ela pode se tornar.

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