começando a leitura de 2666, de Roberto Bolaño

art-robertobolano_225-1-234x300É, fiquei quase um ano sem escrever no blog, resultado das atividades e compromissos do último ano do curso de Psicologia. Foi um ano paradoxalmente longo e rápido. Nos momentos de descanso eu aproveitava assistir à um filme ou para ler alguns livros ou gibis, dentre eles, os quais mereciam uma resenha aqui, Os invisíveis de Grant Morrison, que agora está sendo publicado pela Panini Comics, Um conto de duas cidades, de Charles Dickens, Why Marx Was Right, ótimo livro introdutório de Terry Eagleton e o Hobbit, lido em outubro para ir entrando no clima de fim de ano. Sempre dava vontade de colocar aqui no Resenhar o que achei das histórias, o que pesquisei dos livros e compartilhar o que gostei e o que pude analisar, mas neste ano só fiquei no boca a boca com o pessoal mais próximo.

Só não estou escrevendo pior porque tive que escrever muitos trabalhos neste ano. Vamos ver como sai este post.

Para retomar meus comentários sobre literatura, quero dizer sobre minha atual leitura de 2666, um tijolão do escritor chileno Roberto Bolaño. O autor, mais conhecido depois do premiado Los detetives selvajes e com sua infeliz morte, é tido como um dos melhores da América Latina e caiu no gosto de muitos críticos. Já havia lido sobre o livro e quase o comprei no Chile no ano passado, mas aquela edição da Anagrama estava muito caro para o meu bolso. Indo à um sebo da minha cidade, vi na vitrine a edição traduzida da Companhia das Letras, por 30 reais. “Esse acabou de chegar. Quem conhece o autor sabe que é material bom e leva. Já leu?” Pedi para o atendente me alcançar aquele cubo de páginas e o segurei longe das vistas de outros possíveis interessados. Trata-se de uma história envolvendo um influente e desconhecido escritor alemão chamado Benno Von Archimboldi e uma série de assassinatos ocorrendo na fictícia cidade Santa Teresa, trama baseando-se no femicídio das trabalhadores de Ciudad Juarez ocorridos a partir de 1993. Só com essa menção aos assassinatos no México e com as ótimas indicações sobre o autor encontradas na rede, fiquei com uma alta expectativa para a leitura.

O livro é dividido em cinco partes, cada uma com um foco singular e explorando personagens diferentes em um mesmo cenário emaranhado. Bolaño, um pouco antes de morrer, gostaria que as cinco partes fossem publicadas separadamente e em ordem cronológica com um espaço de um ano, visando o futuro econômico dos filhos. Entretanto, um amigo indicado para lidar com seus assuntos literários póstumos, de acordo com a opinião dos filhos, acreditou que 2666 sendo publicado integralmente conservaria seu valor literário e a fluidez da ficção. Confesso que fiquei desanimado quando descobri que o livro não funcionava como uma história linear e mais tradicional, com a presença de todas suas personagens nas cinco partes. Além disso, é o primeiro livro que leio de Bolaño, tendo como referência somente comentários do meu irmão sobre Estrella Distante, que gostou da leitura e outras resenhas positivas. Aqui só vou comentar as duas primeiras partes (A parte dos críticos e A parte de Amalfitano) e de maneira mais breve.

2666 é amplamente rotulado como fenomenal, ótimo, ambicioso, pretensioso, caótico, obra-prima, livro do ano, etc etc. Obviamente, não consigo avaliar como ambicioso,  nem como obra-prima do autor nem como o livro do ano, mas posso dizer que está sendo uma leitura saborosa, com fluidez, boa ambientação e a narrativa de fluxo de onisciência, como o Milton Ribeiro também aponta. Achei interessante e gostei da Parte dos críticos, onde conta a formação de um grupo de críticos e admiradores do sumido escritor Benno von Archimboldi. Jean-Claude Pelletier (francês), Manuel Espinoza (espanhol), Liz Norton (inglesa) e Piero Morini (italiano) têm uma boa dinâmica e são personagens interessantes na medida do possível. Digo isso tendo em vista o pouco uso de diálogo direto e de cenas de conversas pouco detalhadas, deixando muita coisa inacessível para nós leitores. Não é de todo mal, pois o chileno consegue trabalhar muito bem as motivações, as idiossincrasias, o pensamento e as emoções de cada personagem, até mesmo com uma escrita silenciosa que consegue nos dizer muito sobre a cena.

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O estilo de Bolanõ é engraçado, consegue mesclar cenas rápidas com lentas digressões, passando de associações de pensamento para sonhos e discursos sobre artistas, cultura e violência. Uma crítica diz algo que tive que concordar: o autor pode nos frustrar, mas é uma frustração que parece valer a pena. Explico melhor, mas com revelações do enredo a seguir, atenção: no fim da primeira parte, os críticos acham um rastro de Archimboldi indicando que o alemão esteve recentemente no México, fazendo três dos críticos irem para Santa Teresa. Pelo menos para mim, esta é uma parte da história muito envolvente, dando vontade de saber se o encontram ou não, não sendo possível largar o livro. Enquanto a pista de Archimboldi esfria, há o desfecho para o relacionamento entre Liz e o francês e o espanhol, há a aparição do professor Almafitano, protagonista da segunda parte do livro, além de  novos desenvolvimentos de personagens. Assim, quando parece que a trama vai decolar, ela nos surpreende e se quebra. Talvez não por descontrole ou falta de habilidade de Bolaño. Talvez esses banhos de água fria, quando a obra esfria e parece mudar seu curso, seja algo fundamental para o fim. Será por isso que a epígrafe que abre o livro é a frase “Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio”, de Baudelaire? O horror das mulheres assassinadas no México e da vida obscura de Archimboldi e de passado na segunda guerra mundial?

Se não fosse pela história interessante e por enquanto promissora, pela ambientação, pelos momentos que se transborda o sentimento de urgência, de caos e de estranhamento, contando com alguns parágrafos profundos e poéticos, o livro, no mínimo, tem um grande mérito por conseguir nos prender mesmo em partes em que “nada acontece”.

A segunda parte conserva esta habilidade com o desenrolar do enredo e lida com outros temas,  outras mulheres e outros artistas. Gostei da história da Lola, contada de modo intrigante como a primeira parte do gigantesco romance.

Dessa forma, posso concluir que estou gostando muito da leitura, mesmo com a decepção inicial de saber que as partes são “separadas” umas das outras. Calma, eu sei que ainda tem muitas páginas pela frente, então gosto de pensar cada parte deste livro como uma daquelas boas cenas longas do Tarantino. Podem parecer desviadas e atrasar a história, mas que são boas, são. Outra coisa que se deve levar em consideração: o cara tava morrendo enquanto escrevia esse livro, parando praticamente só para comer e ir ao banheiro. Não revisava suas páginas como fez com outros livros, lutando contra o tempo para criar essa torrente de histórias e montes de páginas. Eventuais “entravamentos” no ritmo ou no estilo são naturais numa circunstância dessa, ainda mais com um livro com quase mil páginas.

Agora embarcarei n’A Parte de Fate, que parece ser mais direta e com toques noir, jornalístico e esquerdista. Para quem achou minha resenha uma bosta ou esperava outra coisa, indico duas resenhas que achei legais, a do blog Hellfire Club e esta em inglês .

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