Mr. Nobody (2009) – projetos e caos

[Mais um post retirado do antigo Resenhar Experientia, dessa vez escrito pelo Marcos, com algumas alterações minhas]

Nemo Nobody é o ultimo homem mortal na Terra em um mundo futurista. Com quase 120 anos, ele é entrevistado por um repórter que quer saber de sua vida e sobre como era o mundo antes de os humanos se tornarem imortais. Nemo começa, então, a contar histórias ao repórter retratando sua vida. Mesmo sendo lançado em 2009, o filme já ganhou status de cult por sua temática filosófica, pelo personagem e pela trilha sonora.

A sinopse é pequena, eu sei, mas devido à genialidade contida no filme, não dá para falar muito sem entregar as belezas do roteiro. Mr. Nobody é um trabalho do diretor Jaco Van Dormael, e reúne em seu elenco: Jared Leto (de Requiem for a dream e Lord of War, sendo inclusive é vocalista da banda 30 Seconds to Mars) e Diane Kruger (Inglorious Basterds). Trata-se de um filme com uma história que exige muita atenção do espectador devido a sua estrutura não-linear, cenas curtas e grande, mistura de imagens, sons e falas.

Em um determinado momento da infância (que será um momento bombástico para o final) Nemo se vê em uma situação onde tem que fazer uma escolha impossível, dolorosa e angustiante. Ele tem que escolher se vai querer ficar com o pai ou com a mãe depois da separação dos dois. Ele então começa a viajar em sua imaginação tentando criar e recriar todas as possibilidades futuras que essa decisão poderia causar. Ele se imagina com várias esposas/namoradas, vários empregos, contemplando todas as várias vidas que ele poderia ter, diante de nossos olhos.

A grande questão deste filme é o peso das escolhas. Logo no começo do filme Nemo coloca que o tempo não volta, e por isto devemos pensar muito bem antes de escolher algo, pois podemos escolher errado. Nesse sentido, há grande semelhanças com o filme Efeito Borboleta (The butterfly effect, 2004), onde grandes cadeias de efeito e consequências se misturam, anulando certas possibilidades e abrindo as portas ao caos. Na verdade são várias histórias que se intercruzam em Mr. Nobody. Eventos que ocorrem e são corrigidos, coisas que aconteceram e não aconteceram. Mas tudo isso sem fazer o público de bobo, pois isso não estraga o prazer e a compreensão de ver o filme.

Parece ter um tema no filme que é o seguinte: a simples ideia de que não se deve planejar as coisas, pois sempre você esquecerá de algo. Indeterminismo, essa é a palavra chave nesse raciocínio. A filosofia do indeterminismo tem se espalhado principalmente no século XX e tem se infiltrado em quase todas as áreas da ciência, em um amplo debate com as diversas formas de se pensar o mundo e as coisas. Como o próprio nome já diz, o indeterminismo prega que os eventos no universo não são fixos e imutáveis, sendo impossível para um gênio ou uma inteligência superior compreender toda a realidade e como será o futuro, como um demônio de Laplasse. Assim, não há essa concepção de previsibilidade absoluta dos fenômenos, regida por uma necessidade mecânica e sem a abertura para o acaso, há o que pode ser representado pelo princípio da incerteza de Heisenberg, um postulado que diz que, no nível subatômico, a medição simultânea de duas coisas com precisão é impossível. Quando se observa uma coisa, se perde outra. Se quer ter certeza de um aspecto, terá que lidar com a falta de certeza em outro. Dentro da psicologia, mais propriamente na Análise do Comportamento, temos a ideia de que o comportamento operante sempre é probabilístico, ou seja, o comportamento nunca será previsto com 100% de certeza. Dessa maneira o universo constitui-se em um amontoado de coisas ordenadas com certa previsibilidade, com abertura ao acaso.

O filme mostra muito bem isso, é impossível planejar com muita certeza o que vai acontecer, como na cena em que Nemo perde o número de Anna por conta de uma gota de chuva que caiu no papel, sendo que essa chuva foi causada por conta de um trabalhador desempregado do Brasil pois, estando em casa cozinhando um ovo, o vapor de água foi influenciar o clima nos EUA. Ainda, o trabalhador havia sido demitido por conta de Nemo ter escolhido a calça mais barata em uma loja, o que deu prejuízo para a dita empresa. Atenção, não sabemos se vapores de ovos cozidos mudam o clima, mas com essa licença poética o filme consegue passar a ideia de que eventos totalmente imprevistos podem afetar nossas vidas.

Tal visão do acaso e do indeterminismo contraria a ideia de homem onipotente. O homem não é o senhor supremo da natureza, justamente por que ele também estar sobre o controle da natureza, da realidade e de outros eventos, inclusive produtos do próprio homem. Mas também não torna o homem totalmente passível, uma vez que o homem ainda é capaz de planejar suas ações, e capaz de fazer escolhas, mesmo sem ter certeza absoluta do resultado. Surge aí uma necessidade de fazer um equilíbrio entre passividade e atividade. Ou seja, todo comportamento tem uma consequência, sendo que essa consequência influenciará tanto os homens, o meio e o próprio comportamento. Dessa maneira, estamos todos sobre controle de algo, mas também estamos agindo e modificando este controle. É uma interação muito complexa, tão complexa que para o indeterminismo nem um gênio ou uma superinteligência poderia prever o futuro.

Em resumo, Mr. Nobody nos mostra que devemos sim pensar nas possibilidades, mas que devemos ter em mente que não existe certo absoluto ou errado absoluto para se escolher, pois as possibilidades nunca se esgotam. Não há como saber se uma escolha é boa ou má, sem antes escolher. Só o futuro irá dizer se ela foi realmente proveitosa ou ruim. Assim, o filme nos dá uma certa lição de esperança, pois mostra que nunca um ambiente será controlado o suficiente para não termos nenhuma escolha.

No segundo filme do Batman de Christopher Nolan, The Dark Knight, o Coringa faz um discurso memorável falando sobre o caos. Ele diz que as pessoas têm medo do caos, elas fazem planos durante toda a sua vida e, quando o caos começa a agir elas ficam frustradas, irritadas, depressivas. A questão é que, durante todo o filme, o Coringa simplesmente joga e não tenta controlar o jogo. Ele é um agente do caos. Nós, como humanos de uma determinada sociedade, tentamos controlar o jogo, tentamos não aceitar o acaso em nossas vidas, até apelando para planos divinos e seres superiores que comandam nosso destino.

Assistam Mr. Nobody! Gostou do filme? Gostou da resenha? Então deixe um comentário.

 

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3 respostas para Mr. Nobody (2009) – projetos e caos

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  2. Gostei muito da resenha,principalmente do antepenúltimo parágrafo. Já que é bem verdade que a vida, muitas vezes é uma aposta, e nós utilizamos nossas habilidades, inteligências, instintos, coração, alma e espirito para apostar. Mas o que não se pode fazer é jogar uma moeda para cima e deixar a vida nos levar, pelo menos não para decisões importantes, como vimos no filme, aquilo não acabou muito bem, rsrsrs.
    Além disso tão importante quanto escolher certo é saber lidar com às consequências das nossas escolhas, sejam elas boas ou ruins. É a lei da ação e reação de Newton, a ação é decidir e a reação é à consequência do que se decide mas se você escolhe errado ainda pode escolher como vai lidar com isso. E para quem gosta de luta como eu. Se sua ação é atacar, a reação do seu oponente será se defender, se esquivar ou contra-atacar (o que eu prefiro). Mas observe que até mesmo na reação há uma escolha.
    Eu ainda me lembro o que um professor disse para minha turma uma vez, ele disse que uma reação química é irreversível mas uma física é reversível. Mas o que me alegrou é lembrar o que uma professora de química dizia para minha turma no ensino médio, ela repetia a frase de um cientista famoso: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, frase de Antoine Lavoisier. Isso significa que mesmo que você não possa controlar uma reação ou reverter, ainda pode transformar, algumas vezes em algo melhor.

    Parabéns Fábio, gostei muito, mas sobre o coringa vou resumir, ele é louco rsrsrsrs. E loucos não têm responsabilidade e é por isso que não tentam lidar com nada. E não sei se você percebeu mas você descreveu exatamente como surge um louco: Ele diz que as pessoas têm medo do caos, elas fazem planos durante toda a sua vida e, quando o caos começa a agir elas ficam frustradas, irritadas, depressivas. E eu adicionaria: e depois podem até enlouquecer. Afinal o próprio coringa é fruto de uma depressão ou uma decepção. É só ir ver a história dele.

    Eu sei disso tudo porque minha mãe já ficou louca por conta de uma decepção e sou grato por ela estar bem hoje em dia. Então, em tudo é necessário equilíbrio, não se pode viver sem se importar com nada mas também se você se importar demais vai acabar enlouquece.

    Acabei escrevendo outro texto rsrs mas tá aí meu comentário.

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