Incal Integral – a saga épica de Jodorowski e Moebius

Imagine uma minhoca cômica rastejando sobre um chão metálico e imundo. Logo ela começa a rastejar mais rápido, mas rápido e ganha mais corpo, até virar um trem-bala que decola ao céu, rumo à guerras intergalácticas e revelações místicas. É assim que posso definir o Incal em poucas palavras. A graphic novel de Alejandro Jodorowski, escritor chileno que já passou parte da vida na França e no México, e Moebius, cultuado artista francês, conta a história de John Difool, um detetive de última categoria, que gosta de fumar, beber e curtir umas prostitutas, além de ter uma gaivota de concreto de estimação. O herói imperfeito será arrastado para uma aventura ao receber um valioso artefato de um alienígena moribundo, o incal. Difool passa a ser o centro do universo, uma vez que o governo, os rebeldes, os Bergs e uma seita tecnológica querem o incal a todo custo. Após uma guerra civil na Cidade-poço, uma cidade subterrânea dividida em níveis de acordo com o estrato social, o detetive acaba sendo obrigado a formar aliança com o Metabarão (o maior guerreiro do universo), Solune (um garoto andrógeno), Animah (uma musa do centro da Terra), Tanatah (a rainha dos rebeldes) e seu assistente o Matador (um homem com cabeça de lobo). Nisso, o objetivo do grupo é fugir do governo e combater a ameaça dos Bergs e do culto tecnológico do Tecnopapa.

Incal integral

Esta edição integral da Devir reúne os 6 álbuns da série original:  L’Incal Noir ( O incal negro, 1981), L’Incal Lumière ( O incal luminoso, 1982), Ce qui est en bas (O que está embaixo,1983), Ce qui est en haut (O que está em cima, 1985), La cinquième essence – Galaxie qui Songe (A quintessência: Galáxia que sonha,1988) e La cinquième essence – La planète Difool (A quintessência: Planeta Difool, 1988). Com um pouco mais de 300 páginas, Incal integral conta toda a saga original, cujo sucesso foi tanto que Jodorowski criou diversas histórias derivadas deste mesmo universo, como as séries Antes do Incal, A casta dos Metabarões e outros.

Como se percebe, Incal é uma história de grandes proporções, uma vez que apresenta vários grupos e ambientações do universo e conta com vários personagens, cada um com suas motivações. Lá pelo final da segunda parte, é evidente que Incal é um épico. Ele começa devagar, como uma minhoca, e acaba ganhado proporções gigantescas, empolgantes. Todas as peças se apresentam e começam a engrenar, juntas, em uma imensa ficção científica cheia de humor, metáforas e simbolismo. Há críticas, mesmo que leves e discretas, à tecnologia, à religião e à mídia. A combinação entre tecnociência e culto religioso ficou bem interessante. Elementos da história que foram apresentadas nas primeiras páginas retornam com peso para o enredo, assim como os acontecimentos sempre abrem novas portas para o desenvolvimento da saga. Gostei bastante da sensação de sequência/consequências que Jodorowski e Moebius conseguiram criar, pois a história vai se modificando com os eventos, ganhando mais proporções. A sensação que fica é que nenhuma página é perdida, nenhum ato é gratuito. Tudo é bem organizado e contado de uma forma que inflama a graphic novel, fora algumas infelizes inconsistências no roteiro que comentarei a seguir.

A arte do francês Moebius é fenomenal. O desenho é simples, expressivo e rico em detalhes. Nesta edição integral da Devir, com a cor original de aquarela, a arte por si já faz o livro valer a pena. Salve algumas alterações inconstantes no comprimento do cabelo de John Difool, Moebius criou um visual agradável e mais do que competente. Vi algumas páginas na internet com a arte original do francês com efeitos digitais, presente nas edições publicadas separadamente pela Devir e não sei se curti. Ficou algo bem moderno, mais cinzento e homogêneo. Não sei qual prefiro, apesar da coloração nova ficar mais atual e sombreada.

incal cores

Incal misturou diversos elementos do antigo roteiro de Duna que Jodorowski estava desenvolvendo para o cinema na década de 70, como o imperadortriz andrógeno e o planeta Aquaend, que é o inverso do planeta desértico do Duna, Arrakis. Além de mudar a forma de se pensar a ficção científica, acredito que Grant Morrison foi influenciado por esta obra do artista chileno, visto que o King Mob dos Invisíveis lembra muito o Metabarão, vide o papel de action hero no grupo e aquele desenho de sobrancelha. Além disso, Jodorowski utiliza muito surrealismo e conceitos da magia e mitologia, assim como o escritor escocês em seus quadrinhos. Alejandro também fez filmes surreais, como A montanha mágica ou o faroeste weird El Topo. Se você não se incomoda com cenas de sexo e bizarrice e tem a mente aberta, vale a pena conferir os dois filmes. “O Quinto Elemento” (The Fifth Element, 1997) foi fortemente inspirado em Incal, incluindo o visual da cidade no filme, que parece não ter chão. Moebius e Jodorowsky chegaram até processar o diretor, o francês Luc Besson, mas perderam a causa. Então se você curte O quinto elemento e Duna, você deve ler todo o Incal.

Incal integralComo já disse, há muita simbologia esotérica, fazendo referências à magia, ao tarô e a psicologia analítica de Carl G. Jung, apreciada pelo Jodorowski. Para começar, John Difool é o tolo ou o louco do tarô, o primeiro arcano maior que abre a sequência para o desenvolvimento pessoal e espiritual, segundo a interpretação do escritor. O tolo representa a liberdade, a busca por experiência e a leveza. Na carta, há um cachorro mordendo o calcanhar do louco, como se o cão tentasse avisá-lo do precipício que tem à frente (o beco do suicídio na Cidade-Poço). Em diversos momentos de Incal há a noção do desenvolvimento espiritual representado no tarô, como o enamoramento e a junção dos lados feminino e masculino. Aliás, Animah, a moça por quem Difool se apaixona, é referência ao conceito de anima de Jung, que faz parte da dualidade e complementariedade anima-animus na teoria de Jung. Como não sei absolutamente nada da teoria de Jung, não postarei nenhuma bobagem sobre o assunto. Procurem por conta própria. Já o próprio incal, representado pelas duas pirâmides, uma escura e outra clara, serve de alegoria para a totalidade, a polaridade e complementariedade do ser e das coisas segundo o entendimento de Jodorowski. Entretanto, nada é perfeito e o próprio teor esotérico deixou a série difícil para o público não iniciado. Antes de entrar em crítica que incluem spoilers, digo que Incal é um ótimo gibi, com seu enredo interessante cheio de alegorias e temas legais. Épico competentemente narrado e ilustrado, Incal poderia ser uma aventura de ficção científica que levaria nota 10 se não fosse alguns furos e inconsistências no roteiro.

———–SPOILERS!!!————————— SPOILERS!!! ———————

Primeiramente, sobre os personagens: Apesar de ter gostado bastante dos personagens, como o Metabarão, o Matador, John Difool e Animah, as motivações deles muitas vezes passam apressadas ou até mesmo inexistentes. Quando o grupo se forma, após a guerra dos rebeldes contra as forças do Prezidente, cada personagem está em um conflito próprio, mas a resolução é tão rápida que parece forçada, ainda mais com a ajuda dos balões de pensamento. Acredito que para a época, anos 80, deixar o roteiro mais mastigado através dos pensamentos dos personagens era até aceitável, mas para mim ficou uma impressão de preguiça e pressa. Em vez de gastar um quadro explicando as ações da pessoa, porque não aproveitar umas quatro páginas desenvolvendo melhor as motivações dela? É o caso do final, onde John está puto com o fim do mundo e com os planos para aplacar a escuridão que irá devorar a vida humana no universo. Ele é mostrado querendo sossego num planeta paraíso, ouro e umas prostitutas, mas de repente, só porque Animah pede para ele embarcar em uma missão, ele vai passivamente. OK, ele pode ter feito por amor a ela, mas mesmo assim ficou inconsistente com o personagem. Em outras cenas, em que soluções são encontradas para resolver algum problema, há a mesma sensação de pressa. As medusas do planeta Aquaend conseguiram destruir os ovos negros com o plasma delas. Mas isso é explicado? Não. O sonho teta dos humanos pode ajudar a luta entre o Incal e a escuridão pela vida no universo, mas isso é explicado? Por momentos assim, a saga de Incal perde sua força enquanto roteiro e ficção científica, uma vez que explicações lógicas deveriam permear a narrativa, para sustentar seu caráter de “ficção científica”. Parece que faltou mais da mitologia do Incal, faltou mais explicações diretas do tarô ou seja lá qual sistema que Jodorowski e Moebius tinham em mente. Outra inconsistência do roteiro é quando o Metabarão atira em John e no Deepo. Uma hora os dois aparecem mortos na nave do guerreiro, com buraco de bala nos corpos e com a confirmação da morte na fala do Metabarão. Em seguida, na presença da rainha do Amok, John revive do nada e enfrenta as forças rebeldes ao lado do Metabarão. Isso é muito mal explicado, é complicadíssimo para salvar Jodorowski deste furo, pois se apresentar John e Deepo mortos para a rainha como uma farsa fosse plano do Metabarão, para depois os dois lutarem juntos, porque haveria sangue no corpo deles na nave? É quase certeza que eles foram mortos, mas o poder do incal acabou dando a habilidade de ressureição para Difool e Deepo. E porque John nunca mais falou deste episódio ou repetiu tal proeza? Pelo menos isso poderia ser justificado com explicações científicas e mitológicas sobre o poder do incal ao longo da série, mas nada é argumentado para ignorarmos esse defeito no roteiro.

Ao fim, após a série ganhar amplas doses de esoterismo, John Difool tem um encontro louco com o criador, um homem barbudo feito de metal dourado. Esta parte é tão hermética que somente os fãs mais hardcore do artista e escritor chileno devem ter entendido de primeira. Fique um tanto decepcionado com o fim sem batalhas épicas e guerras cheia de naves, pois o fim é totalmente místico. E o duro é que é o final da série, acabando de forma tão “viajada”. Sempre achei que o final de uma obra, seja filme, gibi ou livro, é a parte mais importante e que irá dizer se a história foi boa ou ruim. Utilizo as aspas no “viajada” pois não pesquisei muito sobre este final e nem os diversos sentidos que ela pode ter, e também não reli a série. Vai que numa segunda leitura tudo faz sentido.

———–FIM DOS SPOILERS!!!—————–FIM DOS SPOILERES!!!——

Incal

Entretanto, se você leu os spoilers antes mesmo antes de aventurar pelo Incal, não desanime. Mesmo com esses pequenos incômodos ao longo da série, ela é uma HQ de qualidade superior e me deixou seco para conhecer as séries derivadas. Ao que parece, Antes de Incal conta a história de John Difool ainda jovem, metendo seu narizão nos problemas e ambientes urbanos da Cidade-Poço, numa aventura mais pé no chão e noir que a epopeia metafísica da série original. Além de ser limpa quanto ao teor de misticismo, Antes de Incal parece se encaixar perfeitamente com o início propriamente dito de Incal, fazendo uma prequela consistente e coerente.

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