Planetary #3 e Chow Yun-Fat

Mais uma compilação de anotações sobre a terceira história de Planetary, HQ de Warren Ellis e John Cassaday. Desta vez, quero dar ênfase nos filmes de John Woo e Chow Yun-Fat, já que esta edição de Planetary faz referências ao cinema de ação de Hong Kong. Passei a conhecer esses filmes de HK através de outro gibi, Hitman, de Garth Ennis. Se bem me lembro, foi no fim do arco de histórias chamado For tomorrow, que Ennis dedicou a história ao John Woo e ao Yun-Fat. Achei aquelas edições tão boas, tão emocionantes e envolventes, que tive que pesquisar quem eram aqueles caras que recebiam a dedicação. Aí vi que os filmes do John Woo pareciam ser ótimos e assisti The killer pelo youtube e logo em seguida, baixei A better tomorrow, título que Ennis homenageou em Hitman no citado arco. Os dois merecem ser assistidos, tanto pelos temas de honra e amizade, como pelas cenas de ação e violência. Abaixo, nas anotações, falo um pouco mais sobre os filmes e os temas do heroic bloodshed.

Uma vez, questionado sobre qual seu livro ou filme de assassinato preferido, Warren Ellis disse que gostava dos primeiros filmes de John Woo. Ele achava que os asiáticos eram os caras mais durões da Terra, enquanto os homens brancos ocidentais morriam só com um tiro. Se Warren Ellis teve a intenção de fazer referência aos filmes de Chow Yun-Fat, fico muito feliz por estes dois escritores de quadrinhos, Ellis e Ennis, gostarem destes bons filmes. Entretanto, For tomorrow é bem mais empolgante, sério e importante no contexto de Hitman do que esta história de Planetary.

Ringo Chen, personagem de Hitman.

Ringo Chen, personagem de Hitman.

Hitman vale muito a pena ler, de verdade. Quando for publicado em encadernados aqui, será a oportunidade perfeita para fazer uma resenha decente.

Porém, para aqueles que acharam essas primeiras histórias de Planetary chatas e paradas, espero que gostem da série mais lá pela metade, ou até mesmo antes. Depende do que você procura em um gibi. Até aqui a série já nos deu coisas interessantes para pensarmos: a data da criação de Planetary é incerta, fantasmas existem e há um HD gigantesco que ocupa milhares de dimensões. E assim, agregando dados aos poucos, a série mostra seu caldo, seu universo e seus conceitos; suas potencialidades.

3:59 As primeiras oito páginas desta edição, assim como um bom pedaço de seu fim, tem uma diagramação dos quadros de forma bem semelhante ao widescreen do cinema: retangular, horizontal e pegando as duas bordas da página. Isso é uma característica que Ellis utiliza bastante em seus quadrinhos e que acabou sendo referenciado como widescreen comic. Em Authority, com o desenhista Bryan Hitch, esse método também já foi utilizado e foi levado adiante pelo artista nos Ultimates da Marvel.

Quadrinhos em widescreen

Quadrinhos em widescreen

Chow Yun-Fat em Hard Boiled

Chow Yun-Fat em Hard Boiled

3:61 O pistoleiro fantasma se parece com Chow Yun-Fat, ator chinês que fez vários filmes de ação com John Woo. Considerado galã e fodão por muitos, seus mais importantes filmes são A Better tomorrow, The killer, Hard Boilled e Bullet in the head. Tais filmes pertencem ao gênero típico do cinema de Hong Kong chamado heroic  bloodshed, que pode ser traduzido como “derramamento de sangue heroico”. O gênero é marcado pela presença de muita violência, alta carga emocional, um vilão bem intencionado, que geralmente segue um código de ética, além dos temas de amizade, corrupção e honra. E, é claro, o uso de duas armas ao mesmo tempo. São bons filmes com muita ação empolgante, já aproveito para recomendar estes quatro do Yun-Fat aos interessados. É só uma pena que os anos 80 deixaram as músicas e a edição um pouco esquisita para nossos dias atuais, principalmente em The killer, o mais melodramático de todos.

Por dialogar com o universo dos quadrinhos, a temática do policial também pode ser referência ao Espectro, um personagem da DC. Espectro também foi um policial que morreu traído, voltando como um espírito para realizar sua vingança. Não conheço nada desse herói, mas pela descrição na página da wikipedia, ele se parece bastante com o personagem desta história: “Criado em 1940 por Jerry Siegel e Bernard Baily, o Espectro era um espírito que possuía como hospedeiro humano o policial Jim Corrigan, que regressara da morte com a missão de punir almas corruptas.”

Espectro, esse de capuz e capa verde

Espectro, esse de capuz e capa verde

3:69:3 Policial, traição e vingança. Bem heroic bloodshed.

3:73 Uma grande máquina com estilo gótico contendo informações. Olhem as figuras humanas em posição fetal, pois tem ligação com o que será revelado mais para frente na série para compreendermos um tema principal em Planetary, o das almas e do pós-vida.

3:75:3 “Eu vi o que acontece depois que morremos. Diga que não é nada melhor do que aqui.” Continua em 3:75:4 “Depois disto não existe nada, entende? Não existe pecado, não há inferno nenhum aonde os canalhas vão para arder. Nenhum grande castigo na vida seguinte para assassinos e estupradores. É por isso que fui trazido de volta. Eles precisam ser arrancados agora deste mundo. Este tempo é tudo que temos e não podemos permitir que o roubem de nós.” Uma das melhores falas durante esse primeiro volume e um grande argumento  para irritar seus parentes religiosos, leitores. Apesar do tom niilista da fala, não sei se no pós-vida de Planetary nada exista. Primeiro, fantasmas existem como informação após a morte, como em outro estado físico. Segundo, parece haver algo que estabelece destinos ou funções na dimensão do pós-vida, senão o policial traído não teria voltado para realizar a vingança. É como se o universo fosse um sistema que porcamente se autorregula, pois precisa empregar fantasmas para realizar tarefas na realidade e mantê-la funcionando e viva. Isto será explicado melhor lá na frente, junto com os fetos azuis e magia.

3:80 Aqui há um jogo de palavras que funcionou melhor no inglês. O fantasma diz “just us”, somente nós, e por isso o Baterista entendeu “justiça”, pois o som das duas palavras em inglês se parecem. Mas a tradução da Panini não gera perdas para a história, já que a sensação de solidão e da responsabilidade humana perante o nosso mundo se mantém. É mais o menos o seguinte: mesmo com o estranho sistema pós-vida que utiliza os fantasmas, não há um deus para nos proteger e cuidar da justiça, há somente nós, e devemos agir parar salvar este estranho mundo.

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3 respostas para Planetary #3 e Chow Yun-Fat

  1. Gabriel Rodrigues disse:

    Muito boa essa serie de resenhas suas sobre Planetary, estou notando muitas coisas na hq que eu não tinha pescado

  2. Rapaz, que legal que vc gostou e que te ajuda na leitura, obrigado pelo comentário. Pena que fazer esses posts demoram bastante, mas pretendo continuar, mesmo com posts cobrindo 2 ou 3 edições seguidas. Já li a história toda de novo. Planetary é foda!

  3. Diones Leal disse:

    Bullet in the head não tem a participação do Chow Yun Fat!!

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