Uma história sobre maravilhas

Marvels é um retrato sobre um mundo que testemunha o nascimento de seres extraordinários, humanos ou não-humanos, heróis ou vilões. A mini-série de Kurt Busiek e Alex Ross, que é um puta desenhista, é narrada por um jornalista nova-iorquino comum em meio das ditas maravilhas, o que garante o ponto alto principal da série: uma história dos heróis da Marvel sob a perspectiva de pessoas normais. Quais as reações do povo de Nova York perante as batalhas e a incessante destruição da cidade? Devemos confiar nos Vingadores e nos mutantes do professor Xavier? E isso que é divulgado no Clarim Diário sobre o Homem-Aranha, será verdade? Isso tudo é passado durante as páginas de Marvels, com bastante emoção e qualidade artística.

Nunca fui fã dos heróis da Marvel. Bem, nunca fui fã de qualquer herói de quadrinhos, na verdade. Sempre gostei do Batman, e conhecia muito mais a Liga da Justiça do que os Vingadores, mas Marvels me deixou curioso com o “universo de Stan Lee”. Recentemente assisti aos quatro filmes do X-Men e fiquei muito curioso para saber como é a história dos mutantes nos quadrinhos, e de certa forma, Marvels pode construir uma ponte entre meu pouco entendimento sobre o universo dessa editora e a série dos X-Men. E como li Marvels com o lançamento da coleção oficial de graphic novels da Marvel, pela pareceria entre Salvat e Panini, com certeza irei conhecer muita coisa nova. Aliás, as edições em capa dura da coleção estão fodas, o que nos dá um prazer a mais além da história.

Tudo começa com a origem do primeiro Tocha Humana, da era de ouro, contada através de sua narração e fazendo paralelos entre o monstro de Frankenstein. Uma criatura feita em laboratório que acaba sendo rejeitada pela sociedade, e no fim, se torna maior que seu criador. De início, sendo isolado do mundo pelo próprio criador, o Tocha não sabe o que pensar dos humanos e por isso, não sabe se os ameaça ou os protege. Esta história que abre a edição de Marvles da Salvat (Marvels número 0) é belamente ilustrada e contada e já traça uma conexão com o personagem principal da mini série, o jornalista Phil Sheldon. No começo da edição 1, estamos na década de 30 e vemos Phil no meio de outros jornalistas discutindo a América e a possível guerra. O sonho de Phil era partir para a Europa, onde qualquer jornalista poderia ver as coisas que realmente importariam para o resto do mundo, mas com o passar de alguns anos Nova York acaba sendo o lar de muitas “maravilhas” e o centro das atenções. A primeira edição reúne o Tocha Humana original, Namor e o Capitão América, os três símbolos maiores da era de ouro da Marvel. Através da vida de Phil e do seu trabalho como fotógrafo, vemos a batalha entre Namor e o Tocha Humana, evento crossover importante na história do universo Marvel contado em Marvel Mystery Comics #8-9. Além disso, em meio ao terror da destruição causada pela briga dos dois primeiros super-heróis, a população se encanta com as notícias de um soldado superforte lutando contra os nazistas, o Capitão América.

Marvels é assim, reúne importantes eventos da história da editora e cria uma timeline de 60 anos para retratar alguns dos mais importantes acontecimentos dos quadrinhos da Marvel. Durante a vida profissional de Sheldon, o Quarteto Fantástico surge como a elite dos heróis, a S.H.I.E.L.D. é criada, o Surfista Prateado e o Galactus aparecem em um cenário apocalíptico, o Duende Verde captura Gwen Stacy, entre outras coisas. Busiek criou um roteiro ágil e interessante, pois além de ter um ritmo bom para contar as histórias, ele intercalou os grandes eventos heroicos com a vida pessoal de Sheldon, mostrando como a existência das maravilhas afeta a vida cotidiana dele e das outras pessoas. Por exemplo, nos anos 40, com a presença do Tocha Humana e do Namor, Phil não acredita que ele possa oferecer proteção para sua mulher e futura família perante as novas forças caminhando sobre Nova York, causando uma crise em seu relacionamento.

Marvels é um ótima história, excelentemente contada e ilustrada. Indico para aqueles que não conhecem muito os principais personagens e acontecimentos do universo Marvel, pois Busiek nos apresenta os eventos sem ser hermético. É uma chance de viver esse universo de uma vez só, e ainda com o olhar das pessoas comuns, o que torna a leitura dez vezes mais interessante. Assim, o leitor novato não irá se perder ou se decepcionar com esta mini-série, talvez ficará ainda mais instigado para ler mais da Marvel, como eu fiquei.

Marvels

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Por fim, é interessante notar o tom de toda a história. Em alguns momentos, Busiek brinca com o papel dos heróis em um mundo meramente humano, colocando-os como ora amados e ora odiados pela população. Mostra que os X-Men são o próximo passo da evolução, e nós não podemos fazer nada sobre isso. Mesmo assim, com todo o medo e a destruição disseminados pelos heróis, há um tom de exaltação e de positividade no retrato das maravilhas. Marvels é um olhar otimista do gênero de super-heróis e da existência deles entre os humanos, diferente da visão de Warren Ellis, Alan Moore e Pat Mills, para citar alguns. Alan Moore, como todos conhecem, apresenta uma visão muito sombria de como seria os heróis em nosso mundo em Watchmen. O Comediante, além de ser um estuprador, é uma força imperialista ao lado do Dr. Manhattan. Este, um gigante azul indiferente, foi essencial para a vitória dos Estados Unidos na guerra do Vietnã. Antes de serem decretados como ilegais, os heróis em Watchmen operavam na lógica do controle social, como um anexo do Estado, fora o retrato psicológico conturbado dos vigilantes. Pat Mills, em Marshal Law, mostra os heróis fazendo papel de esquadrões da morte contra movimentos de esquerda na América do Sul, sendo verdadeiras máquinas de guerra e de tortura, coisa muito diferente da visão de salvador que circunda o Capitão América. Warren Ellis, como já comentei nos posts sobre o Planetary, também tem uma visão mais pessimista sobre os heróis. O Ruins, sua paródia de Marvels, apresenta os mesmos heróis da Marvel em estado de decadência, não exatamente vilões ou pessoas ruins, mas seres conturbados, moribundos e isolados. Os títulos já dizem tudo: enquanto para Busiek eles são maravilhas, Ellis os enxerga em ruínas. Entretanto, entre estas produções que visam um retrato mais realista dos heróis, Marvels é diferente por utilizar o olhar de Sheldon como sendo o olhar de pessoas comuns, nosso olhar. É uma grande diferença de Watchmen, por exemplo. E bastante positiva, pois faz da mini-série uma ótima história em quadrinhos, e, digo novamente, recomendada para os iniciados e para os novatos em Marvel.

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