Planetary Annotations – #1 Pelo mundo todo

Como havia dito na resenha do lançamento de Planetary aqui no Brasil, tentarei fazer um guia sobre as múltiplas referências que permeiam a série, buscando muitos comentários e anotações em páginas em inglês. Acho legal ter uma página das anotações em português, principalmente pelo fato dessa série ser foda e de estar sendo lançada pela Panini atualmente. Espero que muitos leitores tirem proveito, assim como pude aprender coisas legais com as anotações em inglês, e consequentemente enriquecendo minha leitura do gibi. Ia fazer um post só com as anotações de todo o volume 1 de Planetary, mas vi que só os comentários da primeira edição deu muita coisa, e ia demorar muito para reunir tudo do primeiro encadernado. Recomendo que antes de lerem as anotações, leiam a edição em questão antes e se possível o encadernado inteiro, pois é muito legal ser guiado pela própria observação e compreensão. É lógico que a gente não pega tudo sem ajuda, por isso, as anotações servem pra aprender mais sobre a série.
Lendo o gibi antes de recorrer às anotações evita certos spoilers, mas já aviso que não será revelado nada de peso sobre a história em si, e nem ficarei colocando o resumo das edições aqui no blog. As anotações se referem a temas, detalhes, conceitos e curiosidades que formam o universo de Planetary, podendo ser lida sem comprometer o enredo da série.
Os comentários são organizados por ordem da leitura, sendo que os números [–:–:–] antes do comentário significa respectivamente: a edição, a página do encadernado da Panini e não da edição original, e o quadro.

Os posts sobre anotações podem sofrer modificações ao longo do tempo, visto que posso ter escrito algo burro e errado, ou posso acrescentar algo interessante que encontrarei mais para frente. Se alguém tiver algum comentário legal ou alguma contribuição, por favor comente e ajude o post a ficar mais útil para os leitores brasileiros.

Edição #1 – Pelo mundo todo

1:20:3 Ao pular do helicóptero e pelos diálogos anteriores, Jakita nos apresenta a sua superforça, sendo que outros poderes serão revelados mais tarde. Como foi sugerido no EOTU, talvez Ellis esteja fazendo alguma referência aos poderes dos heróis da idade de ouro, como a força, a velocidade e a invencibilidade de Superman?

1:21:2 The Vulcania Raven God. Segundo EOTU, pode ser alguma referência a obra de H. P. Lovecraft, sendo que as datas da história do esconderijo em Adirondack e da vida do escritor batem (1920, 1930). Pesquisei no Google e não encontrei nada.

1:20:3 A relíquia chamada casco da nave sepulcro pode pertencer a uma das naves que viajam entre as dimensões, como veremos na edição 4 e na edição 5. Os coronéis assassinos serão comentados na edição 5, durante a história sobre Doc Brass.

Uma revista pulp

Uma revista pulp

1:21:1 Doc Brass, uma releitura de Doc Savage incluindo a aparência e suas capacidades. Doc Savage foi um ícone da ficção pulp, contadas em revistas baratas do início do século XX com papel de péssima qualidade. As pulp magazines contavam histórias de detetives, fantasias, horrores e ficção científica. Apesar de este gênero ser tratado de forma pejorativa atualmente por sua má qualidade gráfica e sensacionalismo, muitos autores de peso saíram das revistas pulp, como Raymond Chandler e Isaac Asimov. Muitos consideram os super-heróis dos quadrinhos sendo descendentes dos heróis pulps, sendo que a página da wikipedia em portugês sobre esse tema informa que a Marvel Comics trabalhava com essas publicações antes de publicar quadrinhos.  Doc Savage era um aventureiro rico, médico, cientista, músico, inventor, cirurgião, entre outras coisas, sendo que seu maior inimigo era um russo chamado John Sunlight e outros vilões que planejavam dominar o mundo. Todas as histórias de Savage acabavam com uma explicação científica, não importando o quão fantástico fosse o enredo. Há muitas outras semelhanças entre Doc Brass e Doc Savage que serão reveladas no número 5.

doc savage doc brass

Na esquerda, capa de um romance com Doc Savage e na direita, a capa da quinta edição de Planetary, mostrando Doc Brass. A fonte e o visual do herói são idênticos.

1:23 Aqui vemos um supergrupo de heróis pulps, os aliados de Doc Brass agindo nas sombras da segunda guerra mundial. Nomeando da esquerda para direita: Hark, baseado em Fu Manchu, personagem muito popular criado por Sax Rhomer, vilão gênio do crime com gosto por venenos e ciência negra. Como será revelado na edição 5, Hark de vilão se tornou aliado de Doc Brass. Travis Hedge Coke aponta que o personagem leva esse nome em homeagem a Hark Tsui, famoso diretor de filmes chineses e de Hong Kong. Isso é interessante, visto que Ellis explora o cinema de HK na terceira edição, como veremos. A Planetary comic appreciation page aponta que Jimmy, a segunda figura, é baseado no James Bond de Ian Fleming, no Operator 5, mais um herói pulp e no Spirit de Will Eisner. Faz muito sentido, já que Spirit foi uma puta influência para o desenvolvimento dos quadrinhos e é de 1940, época da história desta edição de Planetary. Spirit também conserva alguns elementos dos heróis pulp, especificamente do gênero detetive.

Operator 5 e Spirit

Operator 5 e Spirit

O Aviador não tem muito destaque nem nas anotações que encontrei e nem na própria edição. Ele lembra os heróis aviadores dos anos 30, e segundo a PCAP novamente, é baseado em G-8, personagem de romances de espionagem e aventuras aéreas passadas durante a primeira guerra mundial. Pulando Doc Brass, temos Edison, o inventor, baseado em Tom Swift, herói pulp das revistas de ficção científica. Ao seu lado, Sua senhoria ou Lord Blackstock, é o famoso Tarzan. E por fim, em pé está o Aranha, milionário maluco e vigilante. Baseado em O Sombra, personagem originalmente criado para programas de rádio na década de 30, já apareceu em muitos quadrinhos e sua figura é bem difundida. Pronto, para essa nossa geração que nada conhece sobre os antigos heróis pulps, já temos um monte de nome para pesquisar e saber mais.

EOTU faz um comentário bem interessante sobre o desenho e a disposição dos heróis na mesa. Hark e o Aranha são os considerados vilões, de personagem e moral mais obscuras. Nenhum dos dois hesitaria em matar brutalmente qualquer um. Próximo a eles, o lorde Blackstock e Jimmy não chegariam a matar a sangue frio, mas são de índole duvidosa. Já o Aviador e Edison são pessoas heroicas, dotadas de habilidades usadas para o bem, sendo que Doc Brass é o ápice deste arquétipo, estando até “elevado” na arte da página, no centro e acima deles.

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Doc Brass e seus aliados

1:24:5 No fundo, Edison segura um aparelho semelhante ao mostrado na edição 10.

1:26 O floco de neve teórico, a forma da realidade. O multiverso. Esse conceito estará presente em toda a série e também simboliza a relação entre as editoras de quadrinho e o conceito de múltiplas terras. De acordo como as continuidades (storylines) de vários títulos em quadrinhos, haveriam vários universos paralelos, mas de certa forma conectados, como é mostrado pelo floco de neve. A crise nas infinitas terras da DC Comics é emblemática para a relação entre o multiverso dos quadrinhos. Assim, Ellis está formulando em sua série que tudo em tese está ligado, e não só os quadrinhos, mas também a ficção como um todo.

1:30 De outra realidade, aparece uma espécie de Liga da Justiça. Vemos versões modificadas do Batman, da Mulher Maravilha, do Aquaman, do Ajax, do Flash, do Lanterna Verde e do Super-homem. Na subsequente batalha, EOTU e Travis Hedge Coke apontam que Ellis empareou os pulps contra seus respectivos descentendes. Temos o homem de bronze, Doc Brass, contra o Homem de Aço, o Aranha (The Shadow) contra o Batman, sendo que ambos são homens sombrios vigilantes da noite, a Mulher Maravilha contra Tarzan, dois embaixadores de terras “selvagens”, Ajax e Hark, ambos estrangeiros, Flash e Edison, ambos cientistas, e Lanterna Verde contra O Aviador, dois pilotos utilizando tecnologia. Entretanto, nesta batalha que deixa vazar quase 100 anos de ficção heroica, Ellis deixa Doc Brass como vencedor. Como sugere a PCAP, talvez seja um comentário editorial que Ellis esteja fazendo, dando preferência ao herói pulp. Alan Moore não é o único que odeia os super-herois. Ellis diz não gostar do gênero de super-heróis, sendo que por ele, Planetary seria seu último e definitivo trabalho neste assunto. Vale lembrar que ele também escreveu Ruins, um claro paralelo de Marvels, só que muito mais sombrio e cheio de nojo aos super-seres. Segundo ele, os super-heróis enquanto gênero dos quadrinhos e filmes escondem muitas outras possibilidades e gêneros da ficção, como os clássicos antigos que foram tão importantes para a história e para a própria construção dos heróis nos quadrinhos. Mais para frente, teremos mais evidências e informações em Planetary sobre como os super-heróis lançam sombras sobre outras histórias interessantes que as pessoas estão deixando de conhecer. Voltaremos a esse assunto novamente. Não estou achando a página que contém a informação, mas possivelmente é da http://sequart.org/. Vale a pena ler os artigos desse site, tem muita coisa boa.

Uma luta simbólica no âmago do gênero heroico. Doc Savage contr Superman, e The Shadow contra Batman.

Uma luta simbólica no âmago do gênero heroico. Doc Savage contra Superman e The Shadow contra Batman na versão de Planetary.

1:33:4 “É um mundo estranho. Vamos mantê-lo assim.” Frase recorrente na série.

Para essa edição, as anotações são basicamente estas. Deve ter muito mais para ser dito, mas só com isso é mais que possível constatar que Planetary engloba muito mais coisa do que parece. Além disso, não quero fazer um guia definitivo, tanto por falta de tempo como por falta de capacidade. Muita coisa interessante nem precisa ser dito aqui, pois é descoberto ao longo da leitura de toda a série. Lendo sem compromisso ou sem um conhecimento profundo sobre os heróis pulps e sobre o universo editorial dos quadrinhos, essa primeira edição já é bem interessante por apresentar os temas e o tom da série. O ritmo da série também é um pouco diferente, sendo que os protagonistas não fazem muita coisa no começo além de investigar algo que já ocorreu. De início, não me empolguei tanto, visto que não sabia nada sobre as pulp magazines e etc, mas já estava curtindo na quarta edição. Quem não gostou dessa primeira história, tente chegar pelo menos na sexta edição. é onde tudo começa a ficar mais coeso e mais definido.

Para quem se empolgou com as anotações e com os conceitos e temas propostos pela história, então Planetary tem tudo pra agradar até o fim.

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5 respostas para Planetary Annotations – #1 Pelo mundo todo

  1. Marcos disse:

    Muito bom.

    De início, eu confesso que não curti Planetary,o ritmo das histórias e uma certa falta de ligação entre elas me incomodou. Não fazia idéia que existiam tantas referências assim.

    • Fábio disse:

      Cara, também confesso que só fui pego pela série no sexto número, onde os inimigos deles são apresentados. Tbm achei o ritmo bem diferente e a falta de conhecimento sobre o universo em quadrinhos me fez falta. Enquanto ia lendo a série, fui pesquisando as referências e meu interesse aumentava bastante. A série esconde muitas coisas interessantes, mas é possível aprecia-la sem saber de tudo por trás dos quadros.

      Valeu pelo comentário!

  2. Igor Fernando disse:

    Matéria muito boa. Adoro Planetay, junto com Sandman e Y, é uma das minhas HQs favoritas.
    Ótimas referencias citadas. A mente de Warren Ellis é uma coisa bem doida. É incrivel como ele consegue por mil refencias e citações e ainda fazer um roteiro bem amarrado e muito inteligente.
    Que venha matérias comentando os próximos números!

  3. Marcio disse:

    Muito bom! No aguardo dos próximos!

  4. marcio coelho disse:

    Reli Planetary recentemente e novamente achei uma das coisas mais geniais que li em quadrinhos. É muito interessante ver como o Ellis consegue usar tantas referências, sejam elas dos pulps, quadrinhos, literatura e ciência(mostrando até que estão interligadas)
    Olha, gostei desde o início das páginas. Não é quadrinho do super ou do batman, as coisas vão sendo construídas aos poucos.
    Muito legal esse post sobre o universo dos pulps, quem está se interessando por ler Planetary indico esse link.

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