A segunda temporada de Twin Peaks

Mais um post resgatado do antigo blog, só ligeiramente revisado e estendido (impossível pegar um texto velho e não querer modifica-lo).

Em um dia por aí acordei com aquela melodia misteriosa da abertura do Twin Peaks tocando em minha cabeça. Como música quase sempre ajuda a estudar, resolvi colocar a soundtrack da série no youtube enquanto fazia um trabalho para faculdade. Porém, em vez de estudar, desviei meu caminho e acabei sendo levado de volta ao mundo estranho de Cooper e Harry, criado por David Lynch e Mark Frost. Comecei a lembrar de um monte de detalhes bacanas, como a mulher meio louca que anda com um tronco de árvore, o anão que fala ao contrário, os sons misteriosos que preenchiam os episódios, o gigante, o black lodge e várias outras coisas. Me deu vontade de comprar aquele box da série completa a assistir tudo de novo. Na minha lembrança, Twin Peaks é genial. Quero rever tudo de novo um dia desses.

Aí lembrei que tinha inaugurado o Resenhar Experientia com um post sobre a primeira temporada, que escrevi quando tinha acabado de assisti-la. Um ano depois de acabar de ver a série, com essas impressões que a trilha sonora despertou, resolvi escrever sobre a segunda temporada.

Para não ficar repetitivo, quem quer uma sinopse geral da série veja o artigo sobre a primeira temporada. Vale disser que a segunda temporada transcende o gênero policial mais que a primeira, levando os elementos apresentados na primeira temporada a um nível mais elaborado de terror/misticismo e surrealismo (é David Lynch). Como está na wikipedia: Twin Peaks se tornou um dos programas mais assistidos da década de 1990, um sucesso de crítica tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Refletindo seus fãs dedicados, a série se tornou parte da cultura popular, sendo referenciada em outras séries de televisão, comerciais, quadrinhos, jogos eletrônicos, filmes e músicas.

Primeiramente, temos que mencionar as músicas. Não dá para imaginar a série sem as músicas de Angelo Badalamenti e Julee Cruise. Aquele som datado, velho, o jazz perturbador Falling e World Spins, que são tão importantes para atmosfera perfeita.

Mas nem tudo é perfeito, é óbvio. A segunda temporada foi conturbada, cheia de quedas na audiência e pressão da produção atrapalhando o desenvolvimento “natural” e criativo da série. Assim como Roman Polanski nunca mostrou claramente o bebê de Rosemary, Lynch não queria explicar o horror do destino de Laura, mas foi forçado a revelar o assassino de Laura por pressão de muitos que não aguentavam mais o suspense. Também criaram subplots para as personagens para ver se a série se renovava. Alguns ficaram interessantes, mas teve episódios bem arrastados. Muita gente não gostou da metade final da temporada, mas para mim foi até mais interessante do que o mistério da Palmer. Mesmo assim, tendo uma segunda temporada mais heterogênea que a primeira, Twin Peaks merece ser vista.

Falando em personagens, a série tem um cuidado especial na criação destes. Eles são bem construídos, com um passado, segredos, capazes de mudarem conforme a série anda. Ou seja, são conduzidos de uma forma coerente e humana. Não entro em detalhes aqui, mas basta dizer que há certa sensibilidade e carisma rodeando a maioria dos atores. Por exemplo, há um trecho em que Donna, uma das amigas de Laura Palmer, está conversando com Harold, que supostamente estaria com o diário de Laura (que contém informações importantes sobre a vida da garota e seu assassinato). Donna desenvolve uma atração pelo cara, apesar dele ser um pouco recluso e suspeito, e então ele fala: “Eu cresci em Boston. Bem, a verdade é que cresci no meio de livros.” Harold desvia o olhar meio envergonhado. Então Donna se desencosta da poltrona, inclina-se um pouco em direção ao rosto dele e fala: “Existem coisas que os livros não podem te dar.” Harold responde: “Há coisas que não se consegue em lugar nenhum. Mas sonhamos que podemos achar em outras pessoas”.

Já a trama da mulher de Ed, Nadine, que “se tornou” adolescente de novo, foi uma bosta. Perderam muito tempo com isso e dava vontade de pular. E também foi ruim aquela trama pseudo-noir entre o James, o menino da moto, e uma moça casada. Outros subplots foram interessantes, como o conflito amoroso entre o policial ajudante do Harry e a secretária da delegacia. Mas o que me lembro de gostar mais foi o relacionamento amoroso entre o Harry e Josie Packard, o Cooper se apaixonando por uma moça nova na cidade, e é claro, o Windom Earle.

Earle é um vilão tão bom quanto Bob, o demônio que representa todo o mal de Twin Peaks, além de sua história estar mesclada com o passado de Cooper e render alguns episódios empolgantes e tensos. O arco de Cooper contra Earle é a melhor parte da segunda temporada, sem precisar dizer que culmina num dos season finale mais famosos da história da televisão.

Quando estava assistindo a primeira temporada de Twin Peaks  eu sabia que a terceira temporada da série tinha sido cancelada, mas estava torcendo por um fim decente para a história. Duplo engano meu. O final da série é algo chocante e leva a série a um novo patamar de insanidade, além de deixar o cerne da trama de pernas para o ar. Então, Twin Peaks tem um fim aberto, não tem um final que descreveria como “decente”, definitivo e cheio de respostas. Aí que está meu segundo engano: o final de Twin Peaks é uma coisa meio de amor e ódio, é perfeito em sua imperfeição e inconclusão. Às vezes eu penso como seria uma terceira temporada feita agora, mas acho que não ia combinar nada. O café já está frio e já não há mais tortas. Acho que aquele não-final tem que continuar lá, decente em seu lugar. Alias, é esse final que deixou todo mundo doido de curiosidade e raivoso por não saber o que vai acontecer que ajudou a consagrar a série.

Sei lá mais o que dizer, na verdade eu escrevi tudo isso na onda da nostalgia e da lembrança, muito tempo após assistir a série. Só concluo afirmando mais uma vez que quem adora terror, suspense, surrealismo e drama deve conhecer Twin Peaks até o fim, até o cultuado último episódio.

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