Twin Peaks, primeira temporada

Twin Peaks é uma série do gênero policial/drama criada por David Lynch e Mark Frost, A série só teve duas temporadas, totalizando 30 episódios e foi exibida nos EUA entre 1990 e 1991, sendo um sucesso internacional de crítica e altamente influente na cultura popular americana. Para quem não sabe, Lynch é um diretor de filmes interessantes e no mínimo bizarros como O homem elefante, Eraserhead e Veludo Azul. Sabendo disso, se prepare para encontrar elementos surreais e de terror ao longo da série, mas também sem perder a comédia.

Há algum tempo já sabia da existência e da fama dessa série, sempre bem falada, criticada e rodeada por mistério. Como gosto de coisas bizarras, humor negro e surrealismo, fiquei interessado logo de cara. Quando descobri que estava disponível em torrent, baixei logo a primeira temporada e já fui procurando legendas.

Assisti o pilot e tenho que admitir que fiquei muito empolgado. Com duração de 90 minutos, o primeiro episódio começa com Pete Martell descobrindo o cadáver de Laura Palmer, uma jovem brutalmente assassinada, na beira do rio próximo a serraria Packard. A polícia local, liderada por Harry Truman, examina o corpo e começa a investigar o crime. Enquanto isso, a morte da garota comove boa parte da cidade. Colegas de classe choram pela morte da amiga rainha do baile e o diretor da escola resolve fechar a escola em luto. O pai de Laura não aguenta a perda e tem uma crise nervosa, enquanto a mãe solta gritos histéricos e tem visões em cenas agonizantes. Então o drama começa pra valer: a policia entra em ação e começa a interrogar os colegas e conhecidos da garota. Toda uma trama de pistas e suspeitas começa a se delinear, desconstruindo e construindo ao mesmo tempo relatos e personagens.

Depois de meia hora de episódio, somos apresentados ao agente especial do FBI, Dale Cooper, um dos personagens mais legais e excêntricos da série. Adorador de tortas e café, Cooper vai para Twin Peaks para ajudar o xerife Truman no caso de Laura Palmer. A primeira atuação de Cooper no caso já é de grande importância: durante uma autópsia, ele descobre um papelzinho enfiado debaixo da unha da garota, somente com a letra R. Em uma reunião na prefeitura, enquanto uma senhora com um tronco de árvore no colo brinca com o interruptor de luz da sala, Cooper revela que a morte de Laura é muito semelhante à morte de outra garota um ano antes, no mesmo estado.

Agora irei contar um pouco das subtramas que formam o tecido da trama principal. O ex-namorado de Laura, Bobby, descobre que ela estava tendo um caso com outro menino da mesma escola, fomentando raiva e vingança. Porém, Bobby também mantém um caso pelas costas de Laura, com Shelly, uma garçonete da cafeteria. A mesma cafeteria que serve de cenário para muitos encontros entre diferentes personagens. O marido de Shelly, Leo Johnson, é um motorista de caminhão muito agressivo que a ameaça e a mal trata severamente. Esse Leo é um dos principais suspeitos do assassinato. Há também o dono do hotel da cidade, um homem que trama destruir a serraria da viúva Packard e pai de um filho autista que se veste como índio. Audrey, filha do senhor Horne, dono do hotel, é uma garota que gosta de provocar as pessoas e seduzir Cooper, que está hospedado no hotel.
Ponto alto da série: lenta construção dos personagens em meio à trama contínua, em um cenário complexo e intrincado.

Muitos personagens levam vidas duplas, de amantes, traficante, usuário de drogas, indo a cassinos ou planejando roubar negócios comerciais dos outros. Até a imagem de garota perfeita que Laura tinha no início da série começa a se desfazer, revelando uma alma perturbada. Essa lenta construção da trama e a desconstrução das aparências me deixou ligado na série. Pode até parecer batido, coisa já visto em outras séries atuais, mas é muito bem executado em Twin Peaks.

Por se tratar de uma cidade pequena, cada personagem interfere na trama. Personagens vingativos, apaixonados ou violentos, como os colegas de Laura e seu ex-namorado. Outro ponto interessante da primeira temporada é que nenhum personagem é colocado nas categorias “bem” ou “mal”, tal juízo é por parte do telespectador.

Há cenas em que diferentes personagens, sem um ter relação com o outro, estão no mesmo lugar em um único momento, onde duas subtramas se unem, deixando claro que as ações de cada personagem influenciam em toda a trama. É essa grande relação entre todos os personagens que faz a cidade parecer viva e realista.

Como eu disse lá em cima, além do drama dos personagens e da investigação do assassinato, há também cenas de sutil surrealismo com horror e diálogos cômicos para quebrar a tensão. Ou talvez para aumenta-la em alguns casos. Exemplos disso são as visões proféticas da mãe de Laura ou cabeças de animais empalhados em lugares inesperados que dão um clima estranho. Em um episódio, os policiais até falam de um demônio que habita a floresta perto da cidade. Ou o fato do agente Cooper acreditar que seus sonhos estranhos são códigos para resolver o crime (Cooper também consegue entrar em contato com seres de outra realidade).

A série lynchiana é conhecida por revolucionar a TV e os seriados desde o momento em que estreou. Li por aí que as séries dos fins dos anos 8o tinham a estrutura de episódio fechados neles mesmos, não tendo uma historia maior a ser concluída ou continuidade entre os capítulos. Nesse aspecto, Twin Peaks é realmente uma inovação. Dentre os primeiros 8 episódios da série não tem UM episódio sequer perdido ou desviado da trama principal. Diferente de muitas séries atuais, na primeira temporada de Twin Peaks não há essa frescura de “doente da semana”, “vilão da semana”, “monstro da semana” ou “filho da puta da semana”. A primeira temporada é construída como um arco de história, no qual seus personagens se desenvolvem e ganham vida aos poucos, e a trama ganha maiores proporções e caminhos inesperados, acabando em um season finale muito intenso. Das séries que assisto atualmente, somente Mad Men e Boardwalk Empire conseguem ter uma estrutura de roteiro parecida. Como esse artigo do The Observer aponta, Twin Peaks influenciou o modo de narrativa e os temas de Arquivo-X (série considerada filha de Twin Peaks), Lost e Família Soprano.

Como explica a citação abaixo retirada desse blog, Twin Peaks fez com que a imagem de favela de Hollywood que a televisão tinha mudasse. Lynch tornou-a um pouco mais respeitável e mais séria:

Quando Alfred Hitchcock foi para a televisão em 1955, nenhum diretor de peso do cinema o seguiu. Ao contrário, a TV fez surgir profissionais que mais tarde se tornariam grandes diretores de cinema. Quando David Lynch chegou em 1990, abriu as portas para que, gradualmente, cineastas renomados imprimissem sua marca nas séries e minisséries televisivas. Ao longo dos anos, a TV a cabo se tornaria reduto principal dessa ‘gente de cinema’, mas foi “Twin Peaks” que estimulou essa transição.

A série foi cancelada no fim da segunda temporada por baixa audiência, mesmo assim, a série é um marco estrondoso. O filme Twin peaks: fire walk with me, escrito e dirigido por Lynch em 1992 mostra os últimos dias de Laura Palmer e serve de prólogo para a série. Mesmo tendo um curto período de vida, a série foi um sucesso e fizeram até bonequinhos, livros e cartas colecionáveis.Recomendo que todos fanáticos por série de suspense, drama, horror e humor estranho assistam Twin Peaks.

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