Sinal e Ruído – Gaiman e McKean

Sinal é ruído é uma obra conjunta de Neil Gaiman e Dave McKean de 1989, publicada mensalmente na revista britânica The Face. O primeiro estava com algumas notas sobre mitos e acontecimentos bizarros sobre o fim do primeiro milênio cristão e um possível fim do mundo, enquanto o outro estava com vontade de fazer uma história sobre os últimos momentos de Sergei Eisenstein. Daí surgiu a história em quadrinhos sobre um cineasta que está elaborando um filme sobre um apocalipse não ocorrido na Europa Central no ano de 999, tendo seu trabalho e sua vida abalados com a descoberta de um tumor maligno. Depois de voltar da consulta médica, o protagonista se mantém recluso em casa e começa a rodar o filme em sua cabeça, pois como é explicado logo nas primeiras páginas, os filmes lhe vem como uma obsessão, impelindo-o ao trabalho sem pedir licença. “Pra quê fazer um filme se logo vou morrer? Por que criar algo em casa, se ninguém vai ver?”, são perguntas desse tipo que atormentam o cineasta ciente de sua finitude tão próxima.

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A sensibilidade e as reflexões sobre a morte, assim como a preocupação de ser lembrado pelos outros ou de deixar algo seu no mundo, são o ponto forte do roteiro de Gaiman. Entre algumas partes em que o cineasta conversa com a amiga produtora ou o vizinho do prédio, Gaiman monta Apocatástase, o filme imaginário que seria muito legal se existisse de verdade (seria meio Ingmar Bergman) e expõe pensamentos interessantes como: “a mortalidade é algo difícil de se encarar. Aquilo que não nos mata fortalece. Pode até ser. Mas o que nos mata nos mata, e isso é dureza. O que é preciso fazer para a vida ter sentido?”; ou: “é pra isso que serve a arte. É a única oportunidade que temos para ouvir as vozes dos mortos. E, mais do que isso, é o que permite que eles cheguem até nós.”

Um texto muito bem acompanhado por montagens, criações e desenhos do sempre interessante Dave McKean (capista do Sandman, pra quem não sabe). É uma arte cheia de ruídos, de sombras e que consegue passar o clima da história. O quadro em que mostra lágrimas discretas no rosto do cineasta é cheio de emoção.

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Uma história muito boa, valeu a sorte de ter encontrado o gibi em um sebo por 25 reais. Para mim, seria melhor ainda se esse conto fizesse parte de uma ou duas edições de Sandman! Seria perfeito: um cineasta que acha seus filmes muito melhores enquanto estão em sua mente (poderia ser em sonhos se fosse no Sandman, sendo que Morfeus conversaria com o cineasta em seu período criativo, algo desse tipo) e que vai ser levado pela Morte em breve. Apocatástase poderia até ser uma parte da Terra dos Sonhos, onde todos aqueles rosto estranhos se encontram enquanto dormem.

Gostei de como o apocalipse é tratado na história. Há o argumento que a história se repete, no sentido de que a humanidade sempre esperou o seu fim, em diversas épocas e de diversas formas. Mas esse fim definitivo, fomentado por um desejo cristão de justiça e salvação, parece nunca vir de uma vez só. São pequenos apocalipses atrás de pequenos apocalipses. Como é dito na HQ, é sempre o fim do mundo para alguém, aqueles que recebem más notícias em consultórios médicos ou telefonemas tristes sobre um ente querido.

A edição da Conrad é capa dura, tem um papel muito bom e um cuidado todo especial para adaptar os termos traduzidos para o português que se mesclam com a arte. São minutos muito bem gastos de leitura e apreciação.

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Madame Bovary, um livro genial

livro madame bovaryMeu parco conhecimento a respeito da aclamada obra de Gustave Flaubert, Madame Bovary, vem de longe. Talvez por meio de pesquisas pela internet quando eu tinha 10 ou 11 anos, ou por referências em diversos lugares, sejam filmes, outros livros, blogs e ensaios. Confesso que dormi enquanto assistia à adaptação de Claude Chabrol com minha namorada. Foi depois de assistir ao filme Gemma Bovery (2014) que fiquei com muita vontade de ler o romance. Este filme mostra a obsessão de um padeiro de uma pequena cidade na Normandia após conhecer Gemma Bovery e seu esposo, recém-chegados da Inglaterra. A semelhança entre o nome da moça e o romance de Flaubert desperta uma curiosidade misturada com desejo no padeiro, sempre querendo ficar perto de Gemma e saber se esta segue sua vida como a Emma do livro. Para não acabar fazendo uma resenha do filme, quero dizer somente que em uma cena o padeiro tenta convencer a protagonista do filme a ler o romance de Flaubert, dizendo que a mágica do livro é a proeza do autor conseguir nos prender durante várias páginas sem nada acontecer. Por isso, após o filme acabar e ter achado muito interessante o paralelo entre a Emma Bovary e sua corruptela, resolvi pegar o livro e dar uma chance a este grande clássico, tendo em mente que “nada aconteceria”.

Gigante engano! Achei incrível como Flaubert constrói suas personagens através de lembranças, fantasias e pensamentos. A maior parte do livro é composta por investigações das motivações e consciência das personagens, sembre num fluxo relatando o que tal pessoa sentiu ou fez em tal contexto. Eu esperava um romance chato, cheio de descrições cansativas e de difícil digestão, mas agora Madame Bovary é um dos meus grandes favoritos.

Bom, creio que a enredo do romance seja bem conhecido por muita gente. Trata-se da história de Emma, uma jovem bonita, do campo, sonhadora, que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Porém, o romance mostra o declínio de Emma e de sua família ao se casar com Charles, um médico mediano muito apaixonado pela esposa. Frente ao tédio do casamento, pois a realidade não corresponde às fantasias românticas e perfeitas de Bovary, ela começa a nutrir desejos adúlteros com muitos homens que vai conhecendo. Essa é a sinopse básica, lembrando que o final envolve o trágico suícidio da madame Bovary, que não estou considerando como spoiler porque a bosta da obra é de 1857 e todo mundo já sabe como o livro acaba! Mas essa é a questão: você pode saber o que for deste livro que não será igual ao prazer de lê-lo. É isso que separa os ótimos livros, que não envelhecem, dos outros livros. Eu lia cada capítulo com muito cuidado, adorando as descrições, os diálogos, as fantasias, angústias e vontades das personagens, principalmente da madame que adora pular cerca.

Para ilustrar melhor o estilo narrativo do autor, selecionei um trecho que gostei bastante. A cena se passa logo após o casamento:

A conversa de Charles era sem relevo como uma calçada e as ideias de todo mundo nela desfilavam com seu traje comum, sem excitar emoções, riso ou devaneio. Ele nunca tivera a curiosidade, dizia, quando morava em Rouen, de ir ver no teatro os atores de Paris. Não sabia nadar, nem esgrimir, nem atirar e não pôde, em um dia, explicar-lhe um termo de equitação que ela encontrara num romance.

Um homem, pelo contrário, não deveria conhecer tudo, ser exímio em múltiplas atividades, iniciar uma mulher nas energias da paixão, nos refinamentos da vida, em todos os mistérios? Mas ele nada ensinava, nada sabia, nada desejava. Julgava-a feliz e ela tinha raiva por aquela calma tão bem assentada, por aquele peso sereno, pela própria felicidade que ela lhe dava.

O trecho mostra claramente como Charles sentiu-se realizado em sua vida ao se casar com uma mulher tão bonita e amável, e o grande abismo entre a fantasia da esposa e o que ele podia oferecer. Considerada uma obra realista, Madame Bovary contém ironia, críticas ao casamento como instituição perfeita e mostra muito bem como o desenvolvimento da mulher, seja sexual, profissional ou acadêmico, era abafa por uma sociedade masculina. Emma ajudava seu pai na fazenda até se casar. Ao se casar, a única coisa que tinha para fazer era mandar na empregada, desenhar um pouco e ficar lendo romances. Os romances eram sua ponte com o mundo, e neles era prometido uma vida de sucesso, de fortes paixões e de uma vida glamourosa em Paris. A única coisa que ela podia fazer era aprender tocar piano em uma cidade vizinha com o aval do marido. Mas ela aproveitava essa oportunidade para ficar em um quarto de hotel com Léon e nunca aprendeu a tocar uma tecla sequer. Era a fuga que ela tinha, um modo de buscar a prometida felicidade em uma vida tediosa

Aposto que há quem ache Bovary uma sem vergonha de mau caráter. As vezes eu achava ela meio boba por buscar uma felicidade inalcançável e um pouco fria por abandonar uma criança pequena. As vezes torcia por Emma e achava que Charles merecia ser traído. Mas também dava dó dele, tanto pelas traições como pela carreira em declínio. Henry James disse que Flaubert tinha conseguido escrever uma obra cuja todas personagens fossem medíocres. Por isso achei o livro tão bom! As personagens, incluindo as secundárias, são muito bem construídas apesar de medíocres, possibilitando vários níveis de empatia com o leitor. Dentre as secundárias, gostei bastante do farmacêutico iluminista Houmais, o padre Bournisien, de Léon e Rodolphe.

Esse post tá ficando grande, mas não dá pra deixar de falar da famosa cena do fiacre, que causou escândalo na época (aliás, Gustave Flaubert chegou a ser julgado pelo caráter imoral de sua obra).  Eu pensei que seria uma cena chocante, bem explícita, mas na verdade é uma cena de sexo de enorme sutileza, sem mostrar quase nada mas sem perder a sensualidade.

Quero encerrar dizendo que indico esse livro para todo tipo de gente, homem ou mulher, jovem ou velho, para aposentados, para quem estuda farmácia, engenharias, cinema ou física. Nem preciso dizer que é obrigatório para quem estuda letras e psicologia. Com certeza uma obra genial que merece ser relida por milênios, se a humanidade sobreviver até lá. Vão ler!

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Lendo Dom Quixote pela primeira vez

caixa_quixoteO Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, ou simplesmente Dom Quixote, mudou minha vida como leitor. Parece que ganhei alguma coisa após as aventuras do fidalgo louco e seu escudeiro Sancho Pança, como acontece com uma viagem bem aproveitada ou um curso bem feito. Pensando bem, creio ser este o sentimento produzido ao se ler um clássico. Praticamente inaugurei meu interesse por literatura com Metamorfose, de Kafka. Há pouco tempo, enquanto lia Um conto de duas cidades, de Dickens, era frequente a vontade de reler páginas e páginas da história, somente pelo prazer advindo de um romance tão bem contado e escrito. Com Cervantes não foi diferente. Apesar de seu tamanho monumental (dois volumes com mais de 600 páginas cada, da edição da Penguin-Companhia das letras), cada hora que gastei neste clássico foi bem gasta. Sei que há mil artigos sobre esta obra e há pessoas muito mais competentes do que eu para falar algo de valor sobre ela, por isso nem me darei o trabalho de tentar fazer uma análise que esgote elementos do livro, nem quero fazer uma crítica inovadora. Só gostaria de escrever como foi para mim ler este romance, assim como deixar minha opinião sobre essa grande obra.

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Como já disse, minha edição é a da Companhia das letras, que veio em um box muito bonito de papelão e com uma tradução fluida e acessível de Ernani Ssó. Digo acessível por dois motivos. O primeiro pelo que o próprio tradutor fala no texto de apresentação, que as pessoas de hoje tem medo de ler um clássico só porque é grande e antigo, enquanto na verdade foi um livro “best seller” na época, que divertiu muita gente. Ssó não modernizou o texto deixando o romance cheio de “vocês” e de expressões atuais, mas o deixou muito fluido, na minha opinião. O segundo motivo desta edição ser mais acessível é por comparação a outras traduções presentes em outras versões, como da Editora 34, que possui uma tradução mais requintada e tradicional, além de ser premiada e contar com o texto bilíngue. Esta sem dúvida parece ser a mais confiável, mas não sei se atrai tantas pessoas já com medos e preconceitos.

Vamos ao que interessa. Gostei demais do primeiro volume. Cervantes escreve muito bem, tem uma ótima noção narrativa – de mesclas de gênero, de como não se alongar em partes chatas e até como caçoar de seu próprio texto – além de ser uma história bem engraçada. Assim como muita gente, eu só conhecia o episódio em que Dom Quixote enfrenta moinhos pensando que são monstros, que é o emblema desse clássico. Mas há muitas outras situações mirabolantes, bem contadas e melhores do que esta parte. Dom Quixote sempre se vale de trechos dos livros de cavalaria, tendo um conhecimento enciclopédico sobre personagens, situações, monstros e o código moral de quem leva a vida de cavaleiro andante. Isso é muito importante para a história, tanto para criar situações em que o fidalgo bagunça toda a realidade para ver o mundo como ele quer ver, como um mundo encantado de cavaleiros e donzelas, como para a busca de soluções. Em apuros, Quixote muitas vezes se espelha em seus personagens favoritos, fazendo sua vida imitar a ficção.

A mescla entre realidade e ficção (ou loucura) é muito presente na história inteira. Para começar, tem o próprio Dom Quixote, que ficou louco depois de tanto ler livros de cavalaria. Em suas andanças, ele sempre dá um jeito de interpretar fenômenos sob o ponto de vista desses livros, havendo cenas hilárias de como ele se engana e acaba levando Sancho Pança para sua loucura. A reação de terceiros também é divertida, ora tentando colocar senso na cabeça dos dois, ora alimentando as ilusões e tentando armar alguma aventura perigosa para salvar uma donzela formosa. O próprio narrador da história diz ter encontrado os manuscritos da história de Dom Quixote em árabe, de autoria de Cide Hamete Benengeli! Dessa forma, Cervantes brinca até com seu próprio papel de criador e narrador, dizendo que na verdade toda essa história foi registrada pelo Cide Hamete. Outro fator engenhoso é colocar os personagens no mundo real, ou trazer fatos do mundo real para a ficção. Mas isso explico melhor quando falar da segunda parte.

As subtramas no primeiro livro são muito boas. Há a história do pastor que morreu de amores, literalmente, por Marcela, só porque ela recusou-se a dar seu amor a ele. Toda a vila e os pastores culpam-na pelo crime, sendo que no fim das contas conta-se a história de uma mulher forte, pegando as rédeas de seus próprios desejos e do seu destino. Outras tramas mostram tragédias de casamentos forçados, traições, o conflito entre os cristãos e os árabes, sempre envolvendo uma mulher mais formosa que a outra. Cervantes usa tal traço dos livros de cavalaria para fazer graça: aparecem mais de uma dúzia de mulheres na história, mas cada uma apresentada sempre é a mais formosa e graciosa de todo o orbe.

O primeiro livro tem muitos pontos altos, mas o que achei mais interessante é o livro dentro do livro, a “história do curioso impertinente” que o padre lê em uma estalagem. O conto dura uns 3 ou 4 capítulos e é tão boa que já vi edições próprias para ela, lançada como novela autônoma. Achei incrível como Cervantes destila seu estilo, sua inteligência e seu humor nessa pequena novela, não ficando nada longe do Dom Quixote em si.

Poderia falar de muito mais coisa que gostei do primeiro livro, mas o que realmente quero colocar aqui é que não achei a continuação, publicada em 1615, tão boa quanto a anterior, publicada dez anos antes. Claro, ainda é o Cervantes, então é um texto muito bem escrito, apesar de menos divertido; é um texto cheio de virtudes e inteligência, apesar de menos engenhoso. Antes de Cervantes publicar sua segunda parte, houve outra continuação para as aventuras do fidalgo louco e seu escuro, não oficial, escrito por Avellaneda. Como o primeiro livro foi um sucesso, parece que Cervantes ficou puto da vida por outra pessoa ter ousado a continuar as aventuras de seu cavaleiro.

A coisa mais legal que achei da segunda parte foi a decisão de Cervantes fazer com que o primeiro volume de seu livro e a falsa continuação de Avellaneda existissem no mundo dos personagens. Dessa forma, Dom Quixote e Sancho Pança são famosos, o que acaba reforçando a loucura do cavaleiro da triste figura, e possibilita cenas em que Dom Quixote entra em contato com os escritos dos seus feitos. Há cenas engraçadas em que o cavaleiro tem que desmentir o que está na versão de Avellaneda, assim como quando ele faz duras críticas ao seu modo de escrita e a caracterização que faz das personagens. Apesar disso, parece que Cervantes carregou um pouco na vingança contra o escritor aragão, pois teve partes em que achei que a história só existia para sustentar tirações de sarro e críticas à infame continuação.

Outro fator para não ter gostado tanto do segundo livro foi que Dom Quixote fica um bom tempo, quase um quarto do livro, dentro do castelo de um casal de duques. Fãs das aventuras do cavaleiro e do escudeiro, os duques tentam ludibriar os dois, criando situações nem tão interessantes para Dom Quixote, mas dando a prometida ilha ao Sancho, parte que contem as melhores páginas dessa continuação. Dom Quixote ficou muito parado no castelo, enquanto na verdade ele é um cavaleiro andante. Parece que o clima mudou, não estava dando certo ele ficar lá, tanto que depois o próprio cavaleiro admite que precisa sair para realmente viver como acredita, na sua vocação de defensor dos fracos e das donzelas.

Quando há subtramas neste segundo volume, elas são sombras pálidas comparadas com as da primeira parte, pois são menos engenhosas e de resolução rápida. Senti muita falta de uma história do mesmo calibre do Curioso impertinente. Mesmo com pequenas diferenças entre o primeiro e o segundo livro, Cervantes criou uma transição suave e manteve seu estilo inigualável.

Uma última coisa que quero destacar, em defesa da segunda parte, são os ditados que Sancho Pança dispara, muitas vezes sem nexo algum com o contexto, dando margem para Quixote dar-lhe muitas broncas e conselhos. Os personagens que tiveram contato com a obra de Alvellaneda não podiam estar mais corretos, pois diziam que o Sancho daquele livro era muito mais bobo do que engraçado, enquanto o Sancho da continuação oficial brilha em seus disparates mas sem perder a dignidade.

Tive vontade de escrever este post por não ter achado ninguém na internet falando que gostou menos do segundo livro do que do primeiro. Não me entendam mal, apesar de ter gostado menos da continuação, eu quero ler tudo de novo em um futuro próximo, de tão bom que é esse clássico. Comentem aí, se acham Dom Quixote acessível para os dias de hoje, se a graça dele está mais apagada para o público atual ou qualquer coisa que vocês tiverem vontade de discutir sobre esse incrível livro.

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As Crônicas Marcianas – R. Bradbury

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As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles) é um livro que reúne contos de Ray Bradbury publicado originalmente em 1950. Algumas das ditas crônicas foram escritas para revistas de ficção científica no fim dos anos 40, enquanto outras apareceram pela primeira vez na compilação. Apesar de serem contos, Bradbury tece-os em um mesmo enredo: a colonização de Marte pela Terra num futuro sombrio.

A minha edição do Círculo do Livro tem 26 contos, mas há certa variabilidade de acordo com a versão e a editora, podendo haver um ou outro conto a mais ou a menos. Antes de falar sobre o conteúdo, vale dizer que os contos maiores são intercalados por contos menores, vinhetas, geralmente para indicar uma passagem de tempo ou retratar algum acontecimento de maneira mais poética, como um verão momentâneo criado pelas turbinas de um foguete.

Como Bradbury escreveu algum dos contos para revistas, é possível lê-los como se fossem autocontidos, o que torna a leitura diferente de um romance, mais parecido com o formado de uma série de TV. Apesar disso, As Crônicas está longe de ser uma antologia comum, pois o livro funciona bem como um romance; há personagens recorrentes, cenários e conceitos que perduram ao longo da obra, além de um início, um clímax e um fim.

Gostei bastante de vários contos, tendo um ou dois mais arrastados. Vou comentar brevemente alguns deles só para mostrar o tom da obra. Ylla é sobre um relacionamento decadente entre dois marcianos, a Sra. e o Sr. K. Este é um dos únicos contos em que Bradbury se alonga em descrições da tecnologia, da arquitetura e de características únicas dos marcianos. Pegaria mais pra ficção científica pesada se não fosse a trama de tensão entre o casal a partir do momento em que a Sra. K começa a sonhar, ter visões premonitórias com um astronauta terráqueo chamado Nathaniel York. Seu marido, movido por ciúmes, começa a se comportar de forma diferente e parece perder sua esposa aos poucos. Outro conto muito legal é Os homens da terra, um conto hilário em que a segunda expedição humana chega a Marte mas não conseguem obter dos locais as glórias e o reconhecimento tão esperados, como se Bradbury menosprezasse a figura do colonizador/herói carente de atenção. Os contos mais pessimistas, como … e a lua continue tão brilhante, Chegarão chuvas suaves e o Piquenique de um milhão de anos, são belas páginas que retratam o medo da guerra atômica do pós-guerra e a perda de expectativa numa felicidade condicionada ao desenvolvimento tecnológico. No primeiro desses contos, um dos tripulantes de uma expedição em Marte entra em contato com a cultura dos nativos, se voltando contra a própria equipe de exploradores. Há, neste conto, além de um comentário de preservação ecológica, um grande teor anti-imperialista. Marte está prestes a se tornar mais um anexo dos EUA, onde as montanhas azuis e os canais do planeta vermelho perderiam seus nomes nativos, lendários, para ganhar nomes como Hudson, Oklahoma ou qualquer outro do estilo. As idiossincrasias e o valor da cultura marciana seria soterrada pela dos humanos. No segundo conto mencionado, Bradbury nos mostra uma casa automatizada em um cenário apocalíptico. Uma vida mecânica que se esvai e perde o sentido uma vez que seus habitantes já morreram. Parece que o autor quer mostrar o quão inútil seria ter uma casa bem equipada, bem regulada e tecnológica, se nós morrêssemos pelo outro lado da tecnologia, pelo seu uso com fins nefastos. É claro, ele estava pensando na bomba atômica. Por fim, o último que quero comentar nesse post, O piquenique de um milhão de anos é sobre uma família americana tentando um recomeço. Além de ser bem escrito, o leitor fica no mesmo plano dos filhos, que não entendem o que está acontecendo até o fim do conto, onde o pai esclarece, de forma emocionante, o que aconteceu para os filhos e para o leitor.

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Outros contos lidam com a identidade, controle mental e telepatia, saudade de entes queridos (mortos ou deixados na Terra), racismo e religião.

Assim como Fahrenheit 451, que veio 3 anos depois, As Crônicas é um bom comentário sobre o que podemos enfrentar pelo futuro, sobre as tumbas que construímos e o futuro que nelas contemplamos. Ou melhor, ficção científica desse calibre usa o futuro para comentar sobre o presente, sobre os nossos erros, sobre quão efêmero a humanidade pode ser ou quão brilhante ela pode se tornar.

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começando a leitura de 2666, de Roberto Bolaño

art-robertobolano_225-1-234x300É, fiquei quase um ano sem escrever no blog, resultado das atividades e compromissos do último ano do curso de Psicologia. Foi um ano paradoxalmente longo e rápido. Nos momentos de descanso eu aproveitava assistir à um filme ou para ler alguns livros ou gibis, dentre eles, os quais mereciam uma resenha aqui, Os invisíveis de Grant Morrison, que agora está sendo publicado pela Panini Comics, Um conto de duas cidades, de Charles Dickens, Why Marx Was Right, ótimo livro introdutório de Terry Eagleton e o Hobbit, lido em outubro para ir entrando no clima de fim de ano. Sempre dava vontade de colocar aqui no Resenhar o que achei das histórias, o que pesquisei dos livros e compartilhar o que gostei e o que pude analisar, mas neste ano só fiquei no boca a boca com o pessoal mais próximo.

Só não estou escrevendo pior porque tive que escrever muitos trabalhos neste ano. Vamos ver como sai este post.

Para retomar meus comentários sobre literatura, quero dizer sobre minha atual leitura de 2666, um tijolão do escritor chileno Roberto Bolaño. O autor, mais conhecido depois do premiado Los detetives selvajes e com sua infeliz morte, é tido como um dos melhores da América Latina e caiu no gosto de muitos críticos. Já havia lido sobre o livro e quase o comprei no Chile no ano passado, mas aquela edição da Anagrama estava muito caro para o meu bolso. Indo à um sebo da minha cidade, vi na vitrine a edição traduzida da Companhia das Letras, por 30 reais. “Esse acabou de chegar. Quem conhece o autor sabe que é material bom e leva. Já leu?” Pedi para o atendente me alcançar aquele cubo de páginas e o segurei longe das vistas de outros possíveis interessados. Trata-se de uma história envolvendo um influente e desconhecido escritor alemão chamado Benno Von Archimboldi e uma série de assassinatos ocorrendo na fictícia cidade Santa Teresa, trama baseando-se no femicídio das trabalhadores de Ciudad Juarez ocorridos a partir de 1993. Só com essa menção aos assassinatos no México e com as ótimas indicações sobre o autor encontradas na rede, fiquei com uma alta expectativa para a leitura.

O livro é dividido em cinco partes, cada uma com um foco singular e explorando personagens diferentes em um mesmo cenário emaranhado. Bolaño, um pouco antes de morrer, gostaria que as cinco partes fossem publicadas separadamente e em ordem cronológica com um espaço de um ano, visando o futuro econômico dos filhos. Entretanto, um amigo indicado para lidar com seus assuntos literários póstumos, de acordo com a opinião dos filhos, acreditou que 2666 sendo publicado integralmente conservaria seu valor literário e a fluidez da ficção. Confesso que fiquei desanimado quando descobri que o livro não funcionava como uma história linear e mais tradicional, com a presença de todas suas personagens nas cinco partes. Além disso, é o primeiro livro que leio de Bolaño, tendo como referência somente comentários do meu irmão sobre Estrella Distante, que gostou da leitura e outras resenhas positivas. Aqui só vou comentar as duas primeiras partes (A parte dos críticos e A parte de Amalfitano) e de maneira mais breve.

2666 é amplamente rotulado como fenomenal, ótimo, ambicioso, pretensioso, caótico, obra-prima, livro do ano, etc etc. Obviamente, não consigo avaliar como ambicioso,  nem como obra-prima do autor nem como o livro do ano, mas posso dizer que está sendo uma leitura saborosa, com fluidez, boa ambientação e a narrativa de fluxo de onisciência, como o Milton Ribeiro também aponta. Achei interessante e gostei da Parte dos críticos, onde conta a formação de um grupo de críticos e admiradores do sumido escritor Benno von Archimboldi. Jean-Claude Pelletier (francês), Manuel Espinoza (espanhol), Liz Norton (inglesa) e Piero Morini (italiano) têm uma boa dinâmica e são personagens interessantes na medida do possível. Digo isso tendo em vista o pouco uso de diálogo direto e de cenas de conversas pouco detalhadas, deixando muita coisa inacessível para nós leitores. Não é de todo mal, pois o chileno consegue trabalhar muito bem as motivações, as idiossincrasias, o pensamento e as emoções de cada personagem, até mesmo com uma escrita silenciosa que consegue nos dizer muito sobre a cena.

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O estilo de Bolanõ é engraçado, consegue mesclar cenas rápidas com lentas digressões, passando de associações de pensamento para sonhos e discursos sobre artistas, cultura e violência. Uma crítica diz algo que tive que concordar: o autor pode nos frustrar, mas é uma frustração que parece valer a pena. Explico melhor, mas com revelações do enredo a seguir, atenção: no fim da primeira parte, os críticos acham um rastro de Archimboldi indicando que o alemão esteve recentemente no México, fazendo três dos críticos irem para Santa Teresa. Pelo menos para mim, esta é uma parte da história muito envolvente, dando vontade de saber se o encontram ou não, não sendo possível largar o livro. Enquanto a pista de Archimboldi esfria, há o desfecho para o relacionamento entre Liz e o francês e o espanhol, há a aparição do professor Almafitano, protagonista da segunda parte do livro, além de  novos desenvolvimentos de personagens. Assim, quando parece que a trama vai decolar, ela nos surpreende e se quebra. Talvez não por descontrole ou falta de habilidade de Bolaño. Talvez esses banhos de água fria, quando a obra esfria e parece mudar seu curso, seja algo fundamental para o fim. Será por isso que a epígrafe que abre o livro é a frase “Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio”, de Baudelaire? O horror das mulheres assassinadas no México e da vida obscura de Archimboldi e de passado na segunda guerra mundial?

Se não fosse pela história interessante e por enquanto promissora, pela ambientação, pelos momentos que se transborda o sentimento de urgência, de caos e de estranhamento, contando com alguns parágrafos profundos e poéticos, o livro, no mínimo, tem um grande mérito por conseguir nos prender mesmo em partes em que “nada acontece”.

A segunda parte conserva esta habilidade com o desenrolar do enredo e lida com outros temas,  outras mulheres e outros artistas. Gostei da história da Lola, contada de modo intrigante como a primeira parte do gigantesco romance.

Dessa forma, posso concluir que estou gostando muito da leitura, mesmo com a decepção inicial de saber que as partes são “separadas” umas das outras. Calma, eu sei que ainda tem muitas páginas pela frente, então gosto de pensar cada parte deste livro como uma daquelas boas cenas longas do Tarantino. Podem parecer desviadas e atrasar a história, mas que são boas, são. Outra coisa que se deve levar em consideração: o cara tava morrendo enquanto escrevia esse livro, parando praticamente só para comer e ir ao banheiro. Não revisava suas páginas como fez com outros livros, lutando contra o tempo para criar essa torrente de histórias e montes de páginas. Eventuais “entravamentos” no ritmo ou no estilo são naturais numa circunstância dessa, ainda mais com um livro com quase mil páginas.

Agora embarcarei n’A Parte de Fate, que parece ser mais direta e com toques noir, jornalístico e esquerdista. Para quem achou minha resenha uma bosta ou esperava outra coisa, indico duas resenhas que achei legais, a do blog Hellfire Club e esta em inglês .

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